A CRUZ DO AMOR
Barbara Cartland
Ttulo original: The cross of love
Copyright: c 1997 by Barbara Cartland
Copyright para a lngua portuguesa: 1997
BARBARA CARTLAND , sem dvida, a mais famosa escritora romntica do mundo. Entre suas inmeras qualidades, podemos citar algumas:  historiadora, gegrafa, poetisa
e especialista em dietas naturais.
Actuante personalidade poltica, sempre lutou pelos direitos dos grupos menos favorecidos da sociedade inglesa, especialmente os ciganos, vivas pobres e crianas
abandonadas.
Supercriativa e culta, j escreveu mais de 550 livros, editados em todo mundo em dezenas de idiomas e dialectos, tendo alcanado com essas obras a incrvel marca
de 600 milhes de exemplares vendidos.
CAPTULO I
1964
Rena Colwell entrou na sala onde o pai costumava escrever os sermes, e foi para a escrivaninha que, no tempo de sua me, estava cheia de flores. Era uma linda sala.
Agora, o local parecia abandonado, com o papel de parede rasgado em vrios lugares, as cortinas velhas e desbotadas.
Contudo, para Rena continuava sendo o lugar onde ela se sentia feliz e em segurana. L, estivera sempre na companhia das pessoas que amava.
Sua me morrera antes. A partir do momento em que fora sepultada e que o marido dissera as preces, ele cessara de ser o mesmo homem. Perdera toda a alegria de viver.
Prosseguira com a mesma actividade de pastor da igreja durante meses ainda, visitando os doentes da parquia, enterrando os mortos. E, acima de tudo, lutando para
que os jovens assistissem  cerimnia dominical. Essa sua luta tornava-se mais difcil no vero, quando eles preferiam jogos ao ar livre ou nadar no rio.
Rena achava que a nova gerao no se interessava muito pelo futuro. Os adolescentes, pelos vistos, sentiam-se felizes com o que tinham.
E Rena no podia entender tal atitude, pois a aldeia era muito pobre, as crianas no frequentavam boas escolas, e raramente havia actividades sociais para entret-las.
Contentavam-se com o pouco que tinham.
Rena acreditava que, em grande parte, a razo dessa felicidade devia-se a seu pai, que estava sempre pronto a ajudar os habitantes locais na hora da desgraa.
No entanto, depois da morte da esposa, o velho pastor pareceu perder a energia, tornando-se menos activo em seu apostolado.
Rena detestava pensar dessa maneira, mas reconhecia ser a verdade.
Seu pai se tornara uma sombra do que havia sido no passado.
Alguns meses depois da morte da mulher, fora chamado para a casa de um agonizante, numa noite fria de inverno, com neve abundante. Contrara uma gripe que piorava
a cada dia.
Rena fez tudo o que podia para fazer com que o pai se sentisse melhor. At lhe dera as mezinhas que aprendera a fazer com a me. Mas ele no reagia.
Reconhecia que o pai nunca fora muito forte, e seu tipo de vida em nada contribua para que gozasse de melhor sade. Era chamado continuamente em noites frias para
atender doentes e agonizantes.
Ele fora capelo durante a guerra, e isso concorrera para piorar seu estado geral. s vezes conversava sobre suas experincias junto ao exrcito ingls. Embora no
se queixasse, Rena tinha certeza de que sofrera muito por estar longe da Inglaterra. No apenas um sofrimento fsico, mas da mente e do corao.
E agora, quando inesperadamente ele comeava a melhorar, ela encontrou-o morto na cama.
De manh fora ao quarto do pai a fim de saber por que motivo no descera para tomar caf, e notou que ele no respirava. Achou que talvez fosse imaginao sua, e
que logo o pai reviveria e riria dela, por ter se assustado tanto. Mas, ao ver que o corao no batia se deu conta da realidade. Desesperou-se, ciente de que sua
vida terminara tambm. No poderia viver sem o pai.
Os habitantes da aldeia ficaram desolados, pois perdiam o melhor amigo, um amigo que nunca falhara nas horas difceis. Todos choraram muito no funeral, repetindo
constantemente:
O que vamos fazer sem ele? Como poderemos continuar vivendo?
Era de se esperar que se preocupassem. E Rena era a mais preocupada de todos, pela simples razo de que no tinha para onde ir e nem dinheiro.
A aldeia ficava numa parte esquecida do mundo, raramente era visitada por pessoas de outras regies do condado. E isso porque a Casa-Grande, que fora habitada por
dez ou mais geraes de condes, estava agora abandonada e negligenciada.
O ltimo proprietrio no tivera interesse nas pessoas que l moravam; tinha poucos empregados, pois no tinha dinheiro. Herdara apenas a Casa-Grande de um antecessor,
mas no meios para mant-la.
Rena jamais se preocupara com o conde, pois na verdade no o conhecia. O homem vivia confinado na casa e nunca ningum o vira cavalgando nos prados ou indo  aldeia.
O homem morrera durante a noite, e s dias mais tarde os habitantes locais souberam de sua morte. Nem o pastor fora chamado.
Rena s esperava que, aps a morte dele, viesse outro proprietrio que se interessasse mais pela aldeia.
Porm, o que a preocupava acima de tudo, agora aps a morte de seu pai, era a vinda do novo pastor, nomeado pelo bispo. Precisava desocupar a Casa Paroquial, e no
tinha para onde ir.
O pai deixara a conta bancria quase vazia. O salrio dele era muito reduzido, e mal dava para viver. E mesmo esse pequeno salrio cessaria de ser enviado pelo bispo.
- O que poderei fazer? O que poderei fazer? - ela sussurrava.
Mas no obteve resposta.
Aps a morte da me, cuidara do pai achando que ele seria eterno. Nunca pensara no facto de que chegaria o momento em que, sem dinheiro, seria forada a ganhar a
vida num mundo desconhecido.
Mas, como poderia pagar um lugar para dormir, caso tivesse de sair da aldeia?
Seu nervosismo aumentou ao receber a carta do bispo dizendo que lamentaria muito a morte do pastor, e que mandaria um substituto o mais depressa possvel. Isso significava,
embora o bispo no houvesse dito, que ela teria de desocupar a Casa Paroquial.
Sua pergunta era: para onde ir?
Londres ficava bastante longe, e raramente ela fora l. No podia se imaginar trabalhando numa loja da aldeia vizinha, lugar bastante pequeno e de pouco movimento.
Tampouco ensinando crianas que em geral iam a escolas pblicas.
"O que posso fazer? O que posso fazer?"
Seu pai sempre lhe dissera que, se rezasse, Deus atendia as suas preces. Mas agora parecia que Deus no a ouvia, ou suas preces no eram fervorosas.
"O que posso fazer? Leio muito mas no tenho diploma de professora. Adoro cavalgar mas no h cavalos nesta vizinhana."
O cavalo que possura morrera, havia trs anos j. Agora, seria uma questo de tempo desocupar a Casa Paroquial quando o novo pastor aparecesse.
Tinha de comear a preparar as malas. Havia pouca coisa a levar. Alguns vestidos seus e de sua me. Estava consciente de que precisava andar bem vestida para arranjar
um bom emprego.
Rena era uma moa bonita. Seus cabelos louros tinham um toque de dourado. Os olhos azuis da cor do cu eram enormes, talvez grandes demais para um rosto to pequeno.
Como os pais no dessem festas em casa, poucas pessoas haviam percebido que a pequena Rena se transformara numa linda mulher. E, se andasse bem vestida, seria a
moa mais atraente de qualquer reunio social.
"O que posso fazer?"
"Talvez trabalhar como empregada domstica?" Mas a ideia de morar em casa estranha a apavorava. Sabia que a me ficaria chocada se viesse a saber que essa ideia
lhe passara pela cabea.
A sra. Colwell nascera numa famlia de certa projeco social. E os pais dela no ficaram nada felizes ao saber que a filha se apaixonara por um pastor da igreja,
assistente do Vigrio da parquia que eles frequentavam aos domingos.
- Seu pai foi um dos homens mais lindos que conheci - ela dissera a Rena. - Ele disse que se apaixonou por mim no primeiro dia em que me viu entrando na igreja,
na companhia de meus pais, seus avs.
- E vocs se amaram logo? - perguntara Rena.
- Acho que foi o que aconteceu. Mas no tive chance de falar com seu pai durante vrias semanas. Porm um dia nos encontramos, e ele quase no disse uma palavra,
to nervoso estava. Apenas confessou que se impressionara com meu aspecto  primeira vista.
Rena rira muito enquanto a mo continuava:
- Pude entender perfeitamente, porque senti o mesmo. Queria falar mas no sabia o que dizer. No primeiro dia em que ele foi a nossa casa com o vigrio, para tomar
ch, nenhum de ns disse uma nica palavra.
- Mas voc ficou emocionada com a visita, mame?
- To emocionada que sonhei com ele todas as noites at nosso prximo encontro.
E levou muito tempo para que o jovem ministro da igreja tivesse coragem de se aproximar da filha do abastado proprietrio de terras, para conversar com ela a ss.
Enfim um dia, quando houve uma grande festa na casa, a menina apaixonada encontrou um pretexto, no se lembrava bem qual fora, de mostrar ao jovem pastor o canteiro
de morangos. E andaram sozinhos pelo enorme jardim que rodeava a manso.
- Quanto tempo depois disso papai levou, mame, para dizer que a amava?
- Para mim pareceram milhares de anos. Confesso que eu amava seu pai, mas no tinha muita certeza se ele me amava.
- Finalmente um dia ele disse que a amava?
- Disse, e eu me senti arrebatada aos cus junto com ele. Espero, querida, que um dia isso acontea com voc - a sra. Colwell dissera  filha.
Seus pais eram as duas pessoas mais felizes que Rena conhecera. s vezes tinha a impresso de que se esqueciam da existncia dela e de tudo o mais que havia no mundo,
exceptuando-se o facto de que estavam juntos.
Pensando no passado, Rena imaginava que essa era a razo de os pais nunca darem festas. Eles se bastavam. As reunies sociais, raras, s aconteciam em funo do
trabalho da igreja.
Quando as visitas iam embora, eles sentiam alvio porque ficavam sozinhos, no queriam mais ningum alm dos dois.
Porm isso no queria dizer que ela crescera sem receber amor. Mas, de que adiantava esse amor agora?
Quase instintivamente sentou-se  escrivaninha do pai. Sentia-se com se ele estivesse presente, e lhe fez a pergunta que a atormentava.
"O que posso fazer, papai? Aonde devo ir e a quem devo pedir ajuda? Assim que o novo pastor chegar, terei que desocupar a Casa Paroquial. No momento, no tenho dinheiro
nem para ir a aldeia mais prxima. Isso sem falar em Londres, onde talvez possa arranjar algum emprego bom."
Ela suspirou e esperou ouvir o pai lhe falar o que deveria fazer.
Ento, como se o conselho lhe tivesse sido enunciado em voz alta, Rena comeou a pensar na cruz que fora encontrada na floresta, atrs da Granja, como era chamada
a Casa-Grande.
Lembrava-se de que fora assunto das conversas na aldeia, quando trabalhadores da floresta a encontraram e pediram ao pastor que fosse v-la.
- Parece-me bem estranho o aparecimento dessa cruz - a me de Rena dissera ao marido. - Mas os homens acham que tem algo a ver com religio. Voc precisa ir l para
dizer se  alguma coisa sagrada ou no.
Rena tinha doze anos na ocasio. E recordava-se de ter ouvido o pai dizer que no tinha tempo, pois precisava preparar o sermo de domingo.
- Voc precisa ir - a mulher insistira. - Afinal,  assunto relacionado  igreja.
E ele cedera, suspirando. Pegou o chapu, beijou a mulher e embrenhou-se pela floresta.
O que os homens acharam era uma enorme cruz, rstica, mas sem a parte superior. Estava suja de lama. Porm, depois que eles a limparam, descobriram uma inscrio
que tiveram dificuldade em decifrar.
Rena e a me foram ver a cruz alguns dias mais tarde. Estava circundada de rvores. Era primavera, e havia flores por toda a parte.
Como o local ficasse na outra extremidade da floresta, fazia-se necessrio atravessar os jardins da Granja para chegar l. Rena lembrava-se de que ficara encantada
ao ver a Granja de perto, pela primeira vez. E se perguntara se algum dia teria chance de nadar no riacho que atravessava a propriedade dos condes.
Extasiara-se ao ver a cruz, e entendera por que o pai se interessara tanto pelo achado. A madeira era diferente de qualquer outra que conheciam. Rena viu a inscrio
que convencera seu pai de que se tratava de uma verdadeira cruz.
Com pacincia, o pastor conseguira decifrar palavra por palavra.
Todos vocs que precisarem de auxlio, o encontraro quando orarem para mim.
- Isso foi o que me convenceu de que  na verdade uma cruz, apesar da falta da parte superior - o pastor dissera. - Acho que foi colocada l h centenas de anos,
quando a casa foi construda. Ou talvez at antes disso.
E ele dera instrues para que a cruz nunca fosse tirada do lugar, excepto se houvesse uma ordem especial do dono das terras.
E l continuara a cruz, at o presente.
"Eu havia me esquecido dessa estranha cruz", Rena disse a si mesma. "Talvez se rezasse naquele lugar, encontraria auxlio, como outras pessoas o encontraram. Meu
pedido ser muito difcil de ser satisfeito, mas preciso fazer de tudo para ganhar algum dinheiro que faa com que eu no morra de fome."
Era primavera. Rena no levou casaco nem chapu para atravessar a floresta. Quando avistou ao longe os portes da Granja, notou que estavam abertos. Haveria visitantes
no local?, pensou. No, era pouco provvel.
Ela quase no se lembrava de como era a Granja. Passara por l algumas vezes, e rapidamente.
Sabia que havia salas grandes e sumptuosas. Mas, para Rena, sala grande era qualquer recinto um pouco maior do que as pequenas salas de sua casa.
Ela notou que o jardim estava abandonado. Sendo primavera, os pssaros cantavam, de vez em quando, um coelho ou um esquilo cruzava os gramados.
Rena estava com pressa, o que no a impediu, contudo, de apreciar o frescor da relva enquanto o sol aquecia sua pele.
"Adoro o campo", dizia a si mesma. "Se tiver de morar em Londres a fim de trabalhar, terei saudades deste lugar e passarei meus dias ansiosa para voltar."
Deu um profundo suspiro, sabendo que voltar era mais ou menos um sonho, pois no haveria possibilidade de ela ganhar a vida na aldeia.
Continuou caminhando devagar, apreciando a vegetao e as flores. Logo deparou com o riacho. Foi quando viu a cruz na qual seu pai estivera to interessado. Linda,
com os rannculos desabrochando a seus ps.
O dourado do sol penetrando por entre a folhagem das rvores realava a madeira escura da cruz, que parecia ainda maior do que na realidade era.
Todo o cenrio tinha aspecto impressionante. E Rena achou que o pai tivera razo ao insistir que aquele seria o lugar perfeito para as pessoas levarem suas dificuldades
e orar, pedindo auxlio.
- Como pode essa cruz me ajudar? - ela disse em voz alta.
Depois lembrou-se de que no era  cruz que pedia ajuda, e sim a Deus.
Teve certeza de que o pai tivera razo ao dizer:
- Qualquer que seja a prece, se vier do corao, ser ouvida por Deus.
Rena ajoelhou-se na grama molhada, e rezou.
Achou que se Deus a ouvisse, com certeza a ajudaria.
De repente, ao lado dos rannculos, enxergou um espinheiro.
E pensou logo que, se a planta crescesse muito, cobriria a cruz.
Tirou ento uma luva de jardinagem do bolso do palet, calou-a e decidiu arrancar a horrvel planta pela raiz. Mas isso sem estragar as flores.
Ao faz-lo notou, com espanto, que havia moedas junto  raiz.
Apanhou-as, limpou-as, e constatou que eram de ouro. Achou que sonhava. Em seguida olhou para a cavidade e viu mais moedas.
"No deve ser verdade", dizia a si mesma. "Como puderam essas moedas vir parar aqui? Como  possvel que a cruz seja sustentada por moedas?"
Eram moedas antigas e nada parecidas com as actuais.
Rena inclinou-se para pegar mais algumas.
Mas instintivamente, como se tivesse sido aconselhada pela prpria cruz, concluiu que o tesouro que achara pertencia ao dono da Granja.
"No posso roubar isso", pensou. "Seria um acto mau, pecaminoso, em especial porque tirado de lugar to sagrado como o da cruz."
Ela limpou mais algumas moedas. Tinha certeza de que eram de ouro, do tempo da Regncia, ou talvez do tempo da rainha Anna.
Seu pai era um conhecedor de moedas, um numismtico na realidade, e se interessava pela transformao do dinheiro atravs dos tempos. Muitas vezes conversara sobre
o assunto com ela.
E agora, Rena achava que aquelas moedas datavam, no mnimo, de cem anos atrs. E isso, com certeza, as tornava muito valiosas.
Foi ento que se lembrou de algo. Algum lhe dissera que um candidato  compra da Granja chegara dias atrs. Resolveu entregar-lhe o tesouro que encontrara.
No que acreditasse na realizao da compra. Muitas pessoas interessadas tinham vindo e sado, sem completar o negcio. Nenhuma delas fizera uma oferta para aquisio
da velha casa.
"S espero", Rena pensava, "que algum decente a compre. E que gaste dinheiro reformando a igreja e, naturalmente, as casas da aldeia."
Ela soubera, pelo pai, que muitas pessoas interessadas haviam aparecido no decorrer dos anos, mas todas partiam sem mostrar o maior entusiasmo pela velha casa que
permanecia at o presente fechada.
"Se houver mesmo um novo proprietrio na Granja, talvez essa minha descoberta o animar a tornar o local habitvel de novo. E ele ajudar os moradores da aldeia
que desesperadamente precisam de emprego para sobreviver."
Com receio de que algum mais visse o que ela acabara de achar, Rena recolocou o espinheiro no lugar. No sem antes pegar em todas as moedas  vista.
Pelo facto de no querer pisar nos rannculos, o espinheiro no ficou bem enterrado como antes, o que ela achou muito bom, pois no cresceria tanto a ponto de cobrir
a cruz.
Assim que terminou sua tarefa, ficou olhando para o lugar sagrado.
"Talvez minhas preces tenham sido atendidas", disse a si prpria.
Depois riu de seu optimismo.
"Mas meu achado no deixa de ser animador. Se o novo proprietrio for um homem generoso, quem sabe me d ao menos uma dessas moedas que desenterrei do solo."
Logo Rena se deu conta de que, se houvesse mais, e tinha certeza de que havia, vendendo-as teria ao menos um pouco de dinheiro para ir a algum lugar procurar emprego.
Como se o pai a estivesse ouvindo, ela teve a impresso de escutar-lhe a voz dizendo que aquilo seria roubo, um acto que Deus condenava.
Roubo era algo que ele no toleraria, em particular vindo da prpria filha.
"Tenho de ser honesta. E, embora seja um pouco cedo para tirar uma concluso, o facto de eu ter achado o tesouro me faz acreditar que obtive resposta a minhas preces."
Porm logo pensou novamente que estava sendo optimista demais.
Ela atravessou a mata cerrada da floresta, e depois os jardins, tomando a direco da Casa-Grande.
CAPTULO II
Como fazia muito tempo que Rena no via a Granja, esquecera-se do quanto era atraente, apesar de seu mau estado de conservao. Sem dvida precisava de uma boa reforma.
As vidraas das janelas estavam quebradas e necessitavam de limpeza.
Tanto as janelas como os tijolos  vista eram muito velhos e muito lindos.
Ao olhar para a casa, Rena se perguntou por que motivo ela ficara tanto tempo sem ir at l, para apreci-la. Apesar da falta de jardineiros, os canteiros tinham
um colorido impressionante devido  grande quantidade de flores das mais variadas tonalidades. A prpria praga que crescia no meio dos gramados fazia parte do quadro:;
no o prejudicava.
"Que casa linda", pensou. "Se no tivesse sido negligenciada por tantos anos, seria uma das mais lindas casas de toda a Inglaterra."
Havia uma boa distncia a ser percorrida da velha ponte  entrada principal da casa. Um pouco alm corria um riacho pelo jardim, que terminava num grande lago.
Vrias vezes Rena pensara em nadar naquele lago. Mas como existia outro lago bem mais perto de sua casa, ela sempre evitara andar at l.
Entre o lago e os jardins da Granja havia uma pequena floresta onde a me a levara muitas vezes quando ela era bem pequena. E lhe dissera que as fadas danavam ali.
Aps a morte da me, Rena no mais voltara ao local, achando que sofreria ao passear por l sozinha. E tambm no desejava encontrar pessoas da aldeia num lugar
que sempre considerava s seu e da me.
No que fosse difcil evitar esses encontros. Poderia ter ido no fim da tarde, quando todos j tivessem voltado do trabalho e estivessem recolhidos em seus chals.
Alm do mais, os aldees no pareciam interessados na Granja, pela simples razo de que no havia trabalho para ningum l, um trabalho que lhes garantisse meios
de sobrevivncia.
Por ser primavera, havia flores por toda a parte, sendo a maior parte delas margaridas e rannculos. Mas o ar estava perfumado com o aroma de lilases e madressilvas.
Desde menina sempre lhe havia dito que a Granja era mal-assombrada. Os mais velhos da aldeia insistiam que ouviam vozes estranhas quando visitavam o lugar. Quem
sabe essa fora a razo que conservara tanto os adultos quanto as crianas afastadas do local.
E Rena lamentava agora ter sido to idiota a ponto de no haver usufrudo a beleza do que via agora.
"Talvez o novo dono faa com que a Granja volte  magnificncia do passado", ela pensou.
No seria muito difcil. Era s observar a casa para ver como fora negligenciada, e se convencer de como poderia facilmente voltar a ser linda de novo.
"Talvez um dia ruir por terra, e tudo ficar perdido se no houver interesse de algum para restaur-la".
Mas seria um crime se isso acontecesse, porque casas como aquelas faziam parte da histria da Inglaterra.
Rena notou que a porta da frente estava aberta. Tinha certeza de que no havia empregados na casa, de contrrio teria ouvido alguma coisa.
Espiou o interior. No tocou a campainha; no havia empregados l, quem atenderia  porta?
Corriam boatos na aldeia de que algum tinha chegado para ver a Granja, mas no se sabia se esse visitante viera sozinho ou com a famlia. Porm de uma coisa Rena
estava segura; se o homem tivesse contratado empregados, ela saberia.
Por no ouvir rudo algum, entrou. Como o exterior da casa, o interior tambm precisava de mais cuidados. Uma espessa camada de poeira cobria as escadas e o assoalho
de madeira das salas. Os tapetes estavam cinzentos de tanto p, como tambm os mveis.
Rena pensou logo na me que gostava tanto de mveis antigos. Ela ficaria horrorizada ao ver o estado em que se encontravam mveis to preciosos. Pareciam ser peas
francesas.
O silncio era absoluto. Com certeza o novo candidato  compra, do qual se falava na aldeia, havia desistido do negcio, horrorizado com a m conservao do lugar.
Por outro lado, se ele ainda continuasse l, estaria na cozinha preparando o caf da manh, pois sem dvida passara a noite na casa, ou viajando.
No instante em que chegou a essa concluso, Rena ouviu um rudo na sala de jantar. Teve um segundo de hesitao. Mas sua curiosidade venceu. Em vez de sair e tocar
a campainha da porta da frente, foi at a sala de jantar.
Era exactamente como seu pai descrevera. Ele estivera l havia oito anos, acompanhando uma pessoa que chegara de Londres para inspeccionar a Granja. E seu pai soubera
mais tarde que a idia era reformar a casa e transform-la numa espcie de hotel de fim de semana, para hspedes que desejassem escapar das cidades grandes.
Seria um lugar de repouso tambm, onde viajantes poderiam passar uns dias e gastar algum dinheiro antes de voltar a suas casas.
Mas nada fora feito porque a pessoa encarregada de inspeccionar o local chegara  concluso de que seria impossvel transform-lo numa estncia para frias. Ele
declarara no haver nada na aldeia que prendesse a ateno das pessoas residentes em outras partes do pas. Ou, pior ainda, de pessoas provenientes do exterior,
que considerariam o lugar um dos menos atraentes da Inglaterra.
Rena lembrava-se agora de que o pai no discutira com o homem, apenas o ouvira. E dera graas ao bom Deus pelo facto de no se fazer da Granja um hotel de divertimentos,
o que acabaria com a paz da aldeia.
Agora, j na sala de jantar, recordava-se do que o pai dissera a ela assim que se despedira do inspector:
- Talvez eu esteja errado, mas fico contente por no se transformar isto num lugar de divertimento para os que tm medo da quietude e da paz do campo.  um local
valioso para ns, e esperamos que pessoas daquela espcie no nos incomodem.
O pastor falara mais consigo mesmo do que com a filha. E agora Rena lembrava-se de que ele ficara radiante ao saber que a Granja continuaria exactamente como sempre
fora, e que ningum aviltaria a casa e as redondezas.
- A Granja pode estar cheia de p, pode necessitar de reparos - ele dissera  filha -, mas  parte de nossa aldeia, e no a dividiremos com ningum mais. E, sem
dvida, no com um idiota como o homem que veio de Londres.
E naquele instante o escrnio da voz dele pareceu soar de novo aos ouvidos de Rena.
"Meu pai gostava das coisas como estavam", ela reflectiu.
Contudo, no podia deixar de admitir que agora pareciam bem piores. A mesa precisava de polimento e o consolo da lareira tinha uma camada grossa de p.
Rena ouviu um rudo de novo. Imaginou que talvez fosse o tal comprador.
Curiosa, foi  cozinha. Para sua enorme surpresa, viu um homem lidando para acender o fogo a lenha.
Consciente da presena dela, o homem disse:
- Talvez voc possa fazer com que este maldito fogo acenda! Estou ansioso para tomar o caf da manh, e a lenha teima em no pegar fogo.
- Deixe-me tentar - Rena insistiu, sorrindo. - Esses foges velhos so problemticos, s vezes.
Quando o homem virou-se, Rena viu que era jovem e muito atraente.
- Se voc conseguir acender esse fogo, poderei tomar meu caf da manh. Estou morrendo de fome. J comi quase tudo o que trouxe comigo. Acho que esta horrvel cozinha
 to sem recursos como o resto da casa.
- Se for o novo dono, sinto muito que tenha essa opinio. - Rena sorriu. - Mas um dia foi uma das mais lindas casas da Inglaterra.
- Acho que precisamos nos apresentar. Mas, antes disso, eu ficaria muito grato por qualquer auxlio que voc pudesse me proporcionar.
- Preciso agora de um pedao de papel. Pode encontrar em uma das gavetas da mesa. Depois, com gravetos e fsforos, acenderei o fogo.
- Suponho que eu deveria saber fazer isso - o rapaz falou. - Mas, francamente, no estou acostumado a cozinhar para mim.
- Ento v arranjar o que lhe pedi. E prometo que no ficar faminto por muito tempo ainda.
Em minutos, Rena acendeu o fogo. Ps gua para ferver numa velha panela e colocou dois ovos que o rapaz trouxera consigo.
Enquanto esperava, ele sentou-se na beirada da enorme mesa que enchia quase toda a rea da cozinha.
Rena no prestava muita ateno nele, mas concentrava-se na refeio que preparava.
O homem trouxera numa cesta meio filo de po e um bom pedao de manteiga. Prontos os ovos, Rena colocou tudo em pratos que encontrou num armrio.
Mandou que ele os levasse  sala de jantar enquanto tentaria encontrar caf ou ch em qualquer lugar da cozinha.
- O que voc prefere? - ela perguntou.
- Ficarei grato por qualquer coisa que me der - o homem respondeu. - Eu deveria convid-la para comer comigo. Mas estou com tanta fome que minha vontade  devorar
tudo o que est sobre a mesa.
- No estou com fome - Rena explicou. - Comi antes de sair de casa.
Isso no era verdade, pois comera apenas pedaos de presunto que sobraram do jantar da noite anterior; e foi comendo enquanto atravessava a floresta.
Agora ali, ao lado do desconhecido, achava estranho ele no ter curiosidade em saber a razo de sua presena na casa.
Ela enfim encontrou o caf que procurava, em um dos armrios; mas s esperava que no tivesse gosto de mofo. Pelos vistos, pareceu que no, pois o homem tomou-o
com evidente prazer, e disse:
- Acho que voc no  real e sim uma fada que apareceu aqui para me salvar. Eu estava morrendo de fome.
- Apenas sinto que a maioria da loua boa tenha sido roubada. Sempre achei um erro deixar esta linda casa desabitada. Apesar de bem fechada, h pessoas que sempre
arranjam um meio de entrar para roubar.
- Acho que devo ser muito grato por no terem levado os quadros e peas do mobilirio - o homem declarou.
- Ento  o novo dono! - exclamou Rena. - Achei, mas me ensinaram que era rude fazer perguntas desse tipo.
O homem riu muito.
-  fada que me alimentou e me deu de beber, coisa que eu no conseguiria Ter sem o auxlio dela, posso apenas dizer que me considero muito feliz por a ter encontrado.
Rena sorriu e disse:
- Foi puro acaso. Passei perto algumas vezes mas no cheguei at aqui por saber que a casa estava vazia. Agora, espero que o novo proprietrio se anime ao ver tudo
o que pode ser feito.
-  o que espera que eu faa?
-  o novo proprietrio? - Rena indagou, surpresa. - Sussurrava-se na aldeia que voc... que o senhor havia chegado, mas eu no tinha muita certeza. Trouxe algo
para lhe mostrar. Uma agradvel surpresa, penso, depois das dificuldades que o senhor teve com a cozinha.
- Acertou - o homem concordou. - Sou o novo proprietrio e confesso que, mesmo antes de ter chegado aqui, sabia que minha herana no haveria de ser alguma coisa
para se receber de braos abertos. Trata-se de uma casa grande demais e dispendiosa, para se usar como moradia.
- Mesmo? - Rena suspirou. - Muitas vezes pensei que seria interessante ver esta casa criar vida de novo e no mais deixada como est agora, gradualmente caindo em
runas at que no sobre nada dela, e nem dos lindos jardins.
- Acho que o que voc diz  verdade, mas h um grande empecilho intransponvel.
- E qual  esse empecilho, posso saber?
- Vou resumir em uma palavra apenas. Dinheiro! Dinheiro para tornar a casa habitvel. Dinheiro para contratar jardineiros, fazendeiros, arrendatrios, empregados
e, naturalmente, dinheiro para comprar cavalos que encham minhas estrebarias.
- Isso seria maravilhoso! - Rena gritou. - Sempre quis cavalgar pelos campos, mas como meu pai recebia muito pouco da igreja, nunca tivemos condies de comprar
um cavalo.
O jovem homem riu e fitou-a atentamente.
- Est por acaso me dizendo que seu pai era o antigo pastor?
- Era. Meu pai, o reverendo Colwell, morreu h um ms mais ou menos. E meu nome  Rena Colwell. Ele trabalhou como pastor da aldeia e conhecia esta casa havia mais
de vinte anos. Agora, quando o bispo mandar para c outro ministro da igreja, eu terei de ir embora.
- Se eu tivesse condies financeiras, convidaria voc para me ajudar a restaurar a casa a fim de torn-la outra vez linda como foi no passado.
- E eu adoraria ajud-lo. Mas o senhor fala como se considerasse impossvel viver aqui.
- E . Estive viajando a servio da Marina de Sua Majestade, e no tinha idia de como seria minha vida no futuro at o instante em que, voltando  Inglaterra, soube,
para meu espanto, que eu era o descendente directo do ltimo conde que herdou isto h trinta ou quarenta anos atrs, penso.
- Acho que h mais tempo ainda - Rena corrigiu-o. - Mas que maravilha para o senhor, ter herdado esta casa!
- De incio achei que se tratava de um conto de fadas. Mas logo constatei que minha herana, alm do ttulo, era simplesmente nada, com excepo da casa e dos arredores.
- Quer dizer que o senhor no tem parentes?
- S alguns, muito velhos, que com certeza sabem tanto quanto eu sabia at ento. Nada!
- E o que pretende fazer?
- Francamente, no sei. Quando soube que esta casa vinha com o ttulo, fiquei exultante por ter um lugar onde morar, e terras. Mas agora que vi tudo, desapontei.
Pelo modo de falar Rena pde perceber que o pobre homem estava de facto desapontado com o que encontrara.
- O senhor tem chance de vender parte das terras, pelo menos. No digo a totalidade mas parte - Rena sugeriu.
- Foi o que pensei, mas tudo se encontra em to mau estado que no sei se conseguiria comprador. Isso se pudesse mesmo vender, o que sei que no ser possvel. Meus
bens devem passar para o prximo conde, embora considerando-se o facto de que os vrios condes que vieram antes de mim jamais tenham se preocupado com isto. O ltimo
conde, que morreu com a idade de noventa anos, nunca morou aqui. Preferiu viver no norte da Inglaterra onde dois de seus antepassados haviam vivido antes. - O conde
sorriu ao acrescentar: - Nenhum dos condes da famlia quis morar aqui, por isso as terras e a casa ficaram no estado em que esto.
- Com certeza o senhor poder remediar o mal - Rena declarou.
O conde sorriu sarcasticamente e replicou:
- No tenho dinheiro. O que economizei de meu salrio de marinheiro foi pouco. No ganhava muito. Para deixar esta casa habitvel sero necessrios milhares de libras.
O pior de tudo  que, conforme j lhe disse, no posso vender nada, porque a propriedade dever passar para o prximo conde da famlia, que pode ser ou no meu filho.
Mas, com toda a certeza, no ser meu filho, pois no tenho condies financeiras que permitam que me case. - Houve um momento de silncio antes que ele dissesse:
- Portanto, se eu no tiver um filho, a casa continuar em runas, como esteve nos ltimos cem anos.
Foi ento que Rena resolveu falar sobre sua descoberta.
- Vim aqui para lhe dizer que encontrei algo em sua propriedade que desejo lhe entregar.
Enquanto falava ela tirou do bolso trs das moedas que encontrara junto ao espinheiro. E as ps sobre a mesa. O sol, que entrava pela janela, as fez brilhar.
O conde ficou esttico.
- So moedas antigas - disse. - Muito antigas! Eu diria que datam de cem anos ou mais. Onde as encontrou.
- Na raiz de um espinheiro. E as trouxe para entregar ao verdadeiro dono, o senhor.
- No pensou em guard-las para si?
- Como j lhe disse, meu pai era pastor da igreja. E uma das coisas que me ensinou foi no roubar, ou melhor, no me apoderar de coisas que no me pertencem.
- Foi muita bondade sua trazer essas moedas valiosas para mim - o conde disse. - Mas, como pode imaginar, para restaurar esta casa precisarei de muito mais que isso.
Digamos, de milhares dessas moedas.
- H muitas outras no lugar. Por esse motivo vim aqui depressa a fim de lhe contar sobre meu achado. O senhor deve ir ao local antes que algum descubra o tesouro.
O conde encarou-a, intrigado.
- Sim - Rena explicou. - H um espinheiro crescendo ao p da cruz, prejudicando a beleza do cenrio, com as anmonas rodeando o lenho sagrado.
- Mal posso acreditar no que me diz - o jovem conde falou, pondo a mo na testa. - Est tentando me fazer imaginar que talvez haja mais moedas iguais a estas no
mesmo lugar?
-  o que espero - Rena declarou. - E isso resolveria seu problema.
- Quer me levar a esse lugar? - o conde pediu. - Como pode imaginar, quero saber logo se h mais desse tesouro aguardando ser descoberto.
-  o que espero. Tenho impresso de que as moedas foram colocadas por uma pessoa grata, pela razo de suas preces terem sido atendidas.
- Por isso voc foi rezar aos ps da cruz? - o conde perguntou.
- Foi. Como o senhor, estou sem dinheiro. Meu pai morreu e preciso encontrar um meio de subsistncia..
- Que tal irmos l juntos, agora mesmo? - sugeriu o conde. - Se a cruz est em minhas terras, podemos verificar se h mais moedas l.
-  o que eu esperava que o senhor dissesse, pelo simples motivo de que muitas pessoas visitem o local e podem descobrir as moedas caso haja mais, o que acredito
que sim.
- Muito bem. Vamos agora.
- Mas iremos por um caminho mais discreto - sugeriu Rena. - Se as pessoas da aldeia o virem indo para perto da cruz, no prprio dia de sua chegada, acharo estranho.
- Antes de tudo diga-me uma coisa. Por que essa cruz est em minhas terras e no foi levada ao cemitrio? Ou  igreja?
- Porque meu pai decidiu que fosse deixada l, onde fora encontrada. Embora falte a parte de cima, meu pai achou que se tratava de uma cruz, por causa da inscrio.
De quando em quando as pessoas da aldeia vo l para pedir favores.
O conde levantou-se imediatamente e Rena conduziu-o ao local, porm seguido por um atalho atrs da Granja, pouco usado pelos caminhantes. Tiveram de atravessar o
riacho atravs de uma ponte rstica de madeira, construda pelos trabalhadores nas terras de Sua Senhoria.
E chegaram ao lugar da cruz, que se erguia majestosa entre as rvores, e que estava rodeada de flores.
Rena ajoelhou-se e rezou, agradecendo a Deus por ter encontrado o dinheiro e tambm o homem, a quem o dinheiro pertencia.
E pediu que o achado ajudasse no apenas o conde, mas outras pessoas tambm, incluindo-a.
Enquanto rezava de olhos fechados, o conde permaneceu ao lado dela observando a cruz. Mas, no instante em que Rena abriu os olhos, viu-o andando na direco da cruz,
pisando inevitavelmente nas flores. O conde puxou o espinheiro que por sinal agora estava muito mais fcil de ser removido. Em seguida comeou a enterrar as mos
no solo mido para ver se encontrava alguma coisa.
Rena ficou preocupada. E se no houvesse mais nada? A ida at o local da cruz teria sido em vo? Ela rezou, pedindo a Deus que os ajudasse.
De sbito, o conde deu um grito de alegria. Rena arregalou os olhos. Ele tinha nas mos um punhado de moedas de ouro, sujas de terra. Parecia um sonho.
- Suas oraes foram atendidas, e tenho certeza de que h muito mais embaixo desta terra - ele afirmou.
- Ser verdade o que est acontecendo? Ser mesmo verdade?
-  verdade. Veja! - O conde estendeu a mo cheia de moedas de Ouro. - O que temos a fazer agora  voltar j para a Granja. Ningum do lugar pode saber o que encontramos
aqui. Mais tarde trarei pessoas peritas no assunto, que podero remover todas as moedas sem danific-las.
Assim dizendo, ele colocou o espinheiro no lugar, passou o brao em volta da cintura de Rena, e ambos voltaram para casa. Seguiram pelo mesmo caminho da ida, entre
as rvores e atravessando a velha ponte de madeira que os levou para o outro lado.
Quase em casa, o conde disse:
- No sei como lhe agradecer. Voc me salvou, ao menos por agora. O que eu sentia ao chegar aqui era s desespero, devido ao estado em que encontrei a casa e o que
havia dentro dela. De qualquer forma, tudo me parece um conto de fadas. Estou encantado com sua descoberta, Rena. Sinto-me bem longe do estado de angstia em que
me viu ao chegar aqui.
- O senhor acha mesmo que haver junto  cruz dinheiro suficiente para a reforma da Granja, e para deix-la como foi no passado? - Rena perguntou, muito emocionada.
- No posso acreditar que nossa sorte seja assim to grande. Mas, qualquer quantia em dinheiro, neste momento, ser de incrvel ajuda para mim. Isso me dar chance
de planear sobre meu futuro. E a voc, mais uma vez muito obrigado.
- Agradea a meu pai. Foi ele quem guiou meus passos at l. E Deus permitiu que tudo isso acontecesse.
-  emocionante demais para ser verdade! - o conde exclamou. - S quero que me prometa no revelar a ningum nossa descoberta.
-  claro que no contarei nada a pessoa alguma - Rena prometeu. - Essas moedas so suas, como tambm todas as que estiverem escondidas sob a terra. Seria terrvel
algum vir a saber, e comeasse a escavacar por toda a parte, na esperana de encontrar algo.
- Tem razo - concordou o conde. - Mas agora  melhor que voc volte para casa. Sua famlia ficar apreensiva com seu atraso, sem saber o que houve.
- Todos de minha famlia morreram. Alis, fui  cruz para pedir auxlio, pois preciso arranjar um emprego para viver.
- Se tivermos sorte - o conde comentou -, voc no ter necessidade de trabalho, a menos que seja um trabalho muito interessante.
Rena sorriu e disse:
- Agora o senhor est esperando demais. No vamos exagerar. Se encontrar mais algumas moedas que lhe permitam viver com conforto, na Granja ou em algum lugar modesto,
j ser ptimo. No acha?
Houve uns minutos de silncio. Em seguida, o conde perguntou:
- O que voc pretende fazer?
- Eu me sentirei muito feliz se minhas preces forem atendidas. E, se o senhor tiver pacincia comigo e me abrigar por alguns dias, posso ao menos ter tempo para
pensar no que fazer na hora em que precisar sair da Casa Paroquial. Isso acontecer quando o bispo designar outro pastor para a aldeia.
Silncio de novo.
Mas, ao chegarem mais perto da Granja, o conde sugeriu:
- Nesse meio tempo, se voc estiver mesmo querendo um emprego, deixe-me oferecer-lhe um. Preciso de governanta, e quero uma, se eu puder pagar, que transforme a
Granja num lugar habitvel.
Rena deu um grito de alegria.
- Eu rezarei para que esse sonho se realize. Pode levar um sculo, mas se pudermos fazer com que a Granja volte a ser o que era, se pudermos ajudar outras pessoas
como fomos ajudados, ento acho que meu pai estava absolutamente certo ao me inspirar para eu ir orar aos ps da cruz. E absolutamente certo em no ter deixado que
a cruz fosse levada para outro lugar. - Depois de uma pausa, ela acrescentou: - Oh, espero muito que meu pai esteja vendo o tesouro que ns encontramos.
A ltima frase saiu de seus lbios com grande espontaneidade.
Mais uma vez, silncio.
Depois, o conde disse:
- Espero muito que seu desejo, ou prece, como queira cham-lo, se transforme em realidade.
CAPTULO III
Quando chegaram  Granja, encontraram a porta conforme a haviam deixado, destrancada. O conde abriu-a e Rena disse:
- Se vou ser sua governanta, e  algo que adoro ser, a primeira coisa a fazer  lhe preparar o almoo. O senhor trouxe algum mantimento?
O conde riu e disse:
- Antes de tudo, Rena, no me chame de senhor. Ok? Chame-me de voc, como fez quando nos conhecemos, e antes de saber que eu era conde. Quanto aos mantimentos, est
querendo demais de mim. Pensei no caf da manh, mas no no almoo.
- Muito bem. Nesse caso, me d algum dinheiro e eu irei  aldeia comprar qualquer coisa. No garanto que possa fazer um banquete, mas prepararei uma refeio simples.
- E eu serei grato pelo que voc preparar. - Ele ps a mo no bolso e tirou algumas libras. - Isso chega?
- Oh,  mais do que suficiente. Comprarei tambm coisas para o jantar. Como governanta, no posso permitir que o senhor... que voc passe fome.
- Espero que no se assuste ao constatar que meu estmago  maior do que eu, quando deixou a Marinha. Aqui fora, no temos a mesma fartura. Porque tambm no temos
dinheiro.
- Nunca duvidei sobre a alimentao no navio - Rena comentou. - Sempre achei que a Marinha era bem gerenciada, bem melhor do que muitas casas.
- Tem razo. Agora, olhando para trs, reconheo que a comida era excelente, o navio limpo. Tudo brilhava, o que infelizmente no posso dizer de minha casa!
- Talvez possa dizer mais cedo do que espera. Mas insisto que no seja impaciente.
- Ao entrarmos, notei que havia correspondncia perto da porta. Deve ter cado da caixa de cartas para dentro.
- O carteiro com certeza passou enquanto estvamos fora. Tocou a campainha e, quando viu que no havia ningum em casa, teve o bom senso de deixar as cartas na caixa.
O conde apanhou-as e exclamou:
- Penso no ser necessrio dizer que o primeiro envelope que peguei  uma conta! Como no se trata de nada agradvel, vou antes almoar para depois ler.
Rena riu muito.
O conde abriu a Segunda carta e, pela expresso do rosto dele, Rena achou que devia se tratar de algo confidencial. E foi para a cozinha.
Olhou por toda a parte a fim de ver se havia qualquer coisa para comer. No viu quase nada, mas achou que encontraria verduras na horta. Sabia que algumas cresciam,
apesar da falta de cultivo.
"Vou precisar de todo o dinheiro que ele me deu", pensou. "Providenciarei coisas para o jantar e para o caf da manh".
E achou que quanto mais depressa andasse com seu trabalho, melhor. Havia muito a ser feito naquela cozinha suja, cheia de p.
"Posso ser a governanta. Mas, pensando bem, para tomar conta da casa toda, preciso de ajuda. E isso no se consegue sem dinheiro."
Porm, apesar de todos os problemas, seu corao sorria de alegria s em pensar no que tinham encontrado aos ps da cruz. E sabia que com isso conseguiria alimentar
o conde at que ele decidisse sobre o que fazer da vida.
Rena saiu pela porta dos fundos. O conde no a viu sair. Havia apenas uma mercearia na aldeia e o dono estava sempre se queixando que os habitantes locais viviam
 sua custa.
- Se cobrasse dele o preo justo - o merceeiro dissera muitas vezes ao pastor -, poderia viver muito melhor. Mas como deix-los que morram de fome, o que acontecer
se tiverem de pagar o valor real da mercadoria?
- Somos muito gratos a voc - Rena ouvira o pai dizer com frequncia. - Tenho esperana que alguns encontraro trabalho e lhe pagaro o que devem.
- Esse dia jamais chegar, reverendo.
Mas esse mercieiro nunca abandonara a aldeia, pelo que o pastor era muito grato, pois fornecera aos aldees, especialmente s crianas, alimento suficiente para
mant-los vivos.
Muitos habitantes locais trabalhavam em aldeias vizinhas. Isso acontecia na primavera e no vero. Mas no inverno era quase impossvel achar trabalho.
Rena esperava que agora, aps haverem descoberto bastante dinheiro debaixo da cruz, o conde empregasse grande nmero de pessoas. Ela j tentava seleccionar famlias
nas quais pudesse confiar, para recomendar ao patro.
"Oh, por favor, meu Deus", rezava, enquanto ia para a aldeia, Permita que haja muitas moedas ainda l. Fico to deprimida ao constatar que as crianas so os seres
que mais sofrem."
Rena sempre amara crianas. Lembrava-se, quando tinha apenas trs anos de idade, de ter dividido os presentes de Natal com elas. Como ficaram contentes ao ganhar
um ursinho ou biscoitos, coisas que suas famlias jamais poderiam comprar.
"Se houver suficiente dinheiro, esta aldeia ser a mais feliz do pas."
Logo se deu conta de que no devia contar com tanto dinheiro, assim to depressa. Era verdade que descobrira um presente cado do cu. E agora s podia rezar para
que o dinheiro encontrado durasse bastante.
Chegou  mercearia e encontrou-a bem provida. O dono havia estado na cidade na vspera, para compras. Havia vveres de todos os tipos. E ela escolheu grande quantidade
deles. No apenas para um dia, mas para dois ou mais dias. Sempre, contudo, procurando no gastar muito.
- No vai comer tudo isso, vai? - o merceeiro lhe perguntou, enquanto Rena separava o que desejava.
- No - ela respondeu. -  para o novo proprietrio da Granja que acabou de chegar. Acho que todos daqui vo ter um bom patro no futuro.
- Ouvi dizer que algum havia chegado - o homem disse, fitando-a com surpresa. - Mas no sabia que era o dono da Granja.
- Correu boato de que no existiam mais descendentes - Rena comentou -, mas todos estavam errados. Como ele era marinheiro, no se encontrava no pas, e apenas agora
foi localizado.
- Boas notcias - disse o homem. - Naturalmente, se ele abrir a Granja, ter de arrumar muitas coisas, e isso  bom para todos ns.
-  o que o conde espera fazer. Mas marinheiros nunca tm muito dinheiro, raramente ficam ricos.
-  verdade - comentou o homem. - Porm ele sempre pode transformar a Granja num hotel.  suficientemente grande para isso.
- Tenho certeza de que Sua Senhoria no pensou em tal hiptese. Contudo, vou lhe falar sobre essa sua sugesto. Porm, antes de tudo, a casa precisa ser restaurada
e os jardins reformados. E isso leva tempo e custa dinheiro.
- De facto - o homem concordou com um aceno de cabea. - Durante anos ningum morou l e, se quiser saber, muitas pessoas tm medo que o tecto desabe sobre elas
ou sobre os fantasmas. Sem dvida h fantasmas que se arrastam pela casa assim que o sol se pe.
- Agora voc est me assustando - Rena protestou, porm rindo muito. - No apenas a mim como a Sua Senhoria. Prometi a ele cuidar da casa. Mas, depois de sua afirmao,
vou ter medo que os fantasmas comam as deliciosas coisas que eu fizer, antes que Sua Senhoria tenha chance de prov-las.
- Contanto que ele pague as contas..., tudo bem. Diga a Sua Senhoria que h muito mais aqui. Com ou sem fantasmas, um homem precisa comer, morando em casa grande
ou pequena.
- O que  absolutamente certo - Rena concordou.
Antes de sair ela pegou mais um pedao de carne e pagou a compra. Ficou s com alguns shillings na bolsa. Mas sabia que o conde lhe daria mais dinheiro para as compras
do dia seguinte, caso fosse necessrio.
Rena entrou pela porta dos fundos, certa de que o conde nem a vira sair. Mas, to logo colocou as compras sobre a mesa da cozinha, ele apareceu, comunicando.
- Foi bom voc chegar logo. Teremos visitas esta tarde. Penso que ficaro s para o ch, mas  possvel que passem a noite aqui.
- Voc no devia permitir isso! - Rena exclamou. - Ainda no tivemos tempo de inspeccionar os quartos. E, se estiverem como as salas aqui embaixo, ser impossvel
hospedar qualquer pessoa.
Como o conde no respondesse, Rena preocupou-se. Teria ficado ofendido? Mas logo ele disse:
- Preciso ser honesto e dizer a voc que o homem que vem aqui  extremamente rico. Conheci-o na ndia. E quando ele soube, penso que atravs dos jornais, que eu
herdara um ttulo, comeou a me ver com outros olhos. Est ansioso para conhecer a residncia de meus ancestrais.
- E vai ficar bem desapontado, se espera encontrar luxo, como  de se supor - observou ela.
-  o que eu penso tambm - o conde assentiu. - Contudo, pelo modo como falou comigo na ltima vez em que nos vimos, suspeito que tentava descobrir um meio de nos
encontrarmos de novo. Talvez j soubesse da herana. O homem me procura por uma razo, uma nica razo.
- E qual  essa razo to especial para ach-lo? - indagou Rena, curiosa. - Se quer ver uma manso ancestral, vai ficar muito desapontado com a Granja, at que tenhamos
tempo de limpar tudo.
- Sim, eu sei, mas voc se esquece, Rena, de que agora tenho um ttulo e de que sou muito diferente, na opinio dele, do marinheiro pobre que convidou para um baile
que ofereceu em homenagem  filha. O que esse homem verdadeiramente quer, e tenho certeza de que  o que vai me dizer quando chegar aqui,  que me case com essa
filha.
- E por que dever voc se casar com uma mulher, a menos que se apaixone por ela?
- A menina  feia e sem graa. Mas  sua nica filha. E ele no tem filho homem para lhe herdar a fortuna. Eu soube, na Amrica, que  um dos novos milionrios do
petrleo. Ele fez fortuna da noite para o dia.
- Quer dizer que  capaz de querer reformar a Granja e lhe dar dinheiro para que voc possa morar aqui, na esperana de ser seu sogro?
- Exactamente! - exclamou o conde. - E  algo que no tenho inteno de aceitar. Se um dia eu me casar, Rena, ser por amor. E seremos felizes, eu e minha mulher,
mesmo sem dinheiro.
Rena bateu palmas e concordou:
-  o que voc deve fazer,  o que meu pai aconselharia. Mas, pensando bem, ser difcil no aceitar a proposta, se o homem lhe prometer restaurar a Granja fazendo-a
to magnfica como no passado. Suponha que ele lhe oferea dinheiro suficiente para voc comprar cavalos, cachorros de caa, dando-lhe a oportunidade de ser um verdadeiro
gentleman. Vai aceitar?
O conde no respondeu. Foi at a janela e ficou olhando para o jardim, agora em estado deplorvel.
Colocando nos armrios os mantimentos que trouxe da aldeia, Rena disse mais:
- Acho que se a moa te amar, com o tempo voc acabar amando-a tambm.
Rena quis acrescentar: e amando o dinheiro dela. Mas achou que seria um comentrio grosseiro demais.
Ao voltar da janela, ele respondeu de maneira categrica, sem hesitao:
- No me venderei, como diz a Bblia, por um quilo de carne. Embora eu saiba que, nesse caso, sero quilos e mais quilos de carne. Prefiro morrer de fome a me ver
casado com uma mulher que no amo, e ser subserviente a um homem com o qual no tenho nada em comum a no ser o facto de ns dois acharmos que o dinheiro  essencial
 vida.
-  claro que tem razo. Papai concordaria com isso, palavra por palavra. S podemos pedir a Deus para permitir que haja sob a cruz quantia suficiente para voc
viver com conforto, mesmo que seja num nico quarto, deixando o resto da casa como est.
Houve uns minutos de silncio antes de ele responder:
- No vou me vender por causa de uma casa que est caindo aos pedaos, ou de um jardim que no tem quase nada alm de ervas daninhas.
- Mas voc tem de viver - insistiu Rena. - E no  fcil,. Hoje em dia, viver sem dinheiro.
-  verdade - o conde concordou. - Mas espero que voc tenha encontrado, para mim, dinheiro suficiente que me permita viver aqui, mesmo com o tecto caindo, e o assoalho
quebrando sob nossos ps.
-  sua inteno ficar na Granja?
- No tenho outro lugar para morar, no momento. Meus pais morreram. Possuo alguns parentes no norte da Inglaterra, pessoas que no vejo h anos. - Havia desespero
na voz dele ao prosseguir: - Actualmente, no tenho mais um navio esperando por mim. Ao menos aqui h um tecto sobre minha cabea e uma governanta que vai me servir
um almoo.
Ele falava assim com a inteno de fazer Rena rir. Mas, ao invs, ela disse:
- Tudo o que voc falou soa muito como uma aventura. No entanto, precisa se lembrar de que esta casa est ficando mais velha ano aps ano, e muito delapidada. O
pessoal da aldeia predizia que o tecto iria ruir no ltimo Natal, quando tivemos muita neve. Por um milagre, isso no aconteceu. Porm duvido que resista mais um
inverno.
- Sei perfeitamente o que voc quer dizer. Contudo, considero-me muito feliz por ter herdado esta propriedade depois que todo o mundo acreditava no haver mais condes
em meu condado. E feliz tambm por ter encontrado vocs e moedas escondidas na velha cruz. Acredito que, no futuro, haver mais surpresas esperando por ns.
- Vamos agora s coisas prticas - sugeriu Rena. - Voc espera duas pessoas esta tarde. Posso providenciar o ch, mas quero que me ajude a limpar os quartos, embora
duvide que seus hspedes queiram passar a noite aqui.
- Ento que voltem para o lugar de onde vieram - o conde protestou rispidamente. - De qualquer forma, tenho certeza de que a razo da visita de meu amigo  me prometer
a restaurao da casa, fazendo-a recuperar o esplendor do passado. Com a condio, claro, de eu partilhar todo o luxo com a filha dele, como minha esposa.
Rena comeou a preparar o almoo. Observando-a, o conde notou como suas mos eram alvas contra a madeira escura da mesa da cozinha. Um raio de sol fazia com que
seus cabelos parecessem fios de ouro.
- Enquanto voc me ajudar, sei que no sofrerei fome - ele disse. - Se minha visita desapontar quanto  sua posio nesta casa, isso tornar mais fcil para mim
lhe dizer que no desejo casar com a filha dele.
- Acha que a jovem quer se casar com voc? - Rena perguntou.
- Tenho a impresso de que ela pensa que um ttulo de nobreza seja a melhor coisa que o dinheiro poder lhe comprar. O pai tem muito orgulho de ser milionrio, e
acredita que possa ter tudo o que deseja. Ele acha que o dinheiro compra todas as coisas no mundo.
- Imagino que haja muitas pessoas que pensam como ele. Meu pai sempre dizia que, apesar de sermos pobres, podemos apreciar as belezas da vida.
- Tais como, por exemplo?
Com um sorriso, Rena respondeu:
- O sol, a lua, as estrelas. Alm disso, h muitas outras coisas que nos fazem felizes, e que no so obtidas atravs do dinheiro.
O conde fitou-a atentamente, e depois riu.
-  algo que espero que me diga. Que outras coisas? Estou pensando que voc no  real, mas parte da rvore mgica que apontou para mim na floresta. Os raios do
sol, coisa que talvez ignore, esto deixando seus cabelos da cor de ouro.
- Um ouro que, infelizmente, voc no pode usar como usar as moedas - ela comentou, sorrindo. - Quanto ao casamento, espero que no se precipite por enquanto. Algo
pode acontecer no futuro e, casando-se agora por convenincia, talvez prejudique sua boa sorte.
- Garanto-lhe que no desejo me casar com ningum. E, acima de tudo, no com uma mulher que est sendo vendida pelo pai.
- Tenho pena dela! Quem sabe a moa nem tenha idia de como o pai  ambicioso.
- Voc vai ter chance de julgar os factos por si mesma - o conde respondeu. - Como no tenho condies de impedir essa visita, os dois estaro aqui na hora do ch.
Acho que vo querer passar a noite, pois a distncia entre a Granja e Londres  grande. Meu amigo milionrio dar como desculpa para isso o cansao dos animais e
o perigo de viajar  noite.
- mas eles no podem pernoitar aqui! - exclamou Rena. - Os quartos devem estar em terrvel estado; no podem ser usados enquanto no se fizer uma boa limpeza.
- Ontem eu dormi num deles. Mas estava to cansado que teria dormido at numa estrebaria. Agora, quando penso, reconheo que estava cheio de p. A cama no era m,
mas havia apenas gua fria nas torneiras. Meus hspedes acharo o lugar muito sem graa e conforto, tenho a certeza.
- Sem dvida. Portanto, se voc tiver bom senso, mande-os de volta para Londres na primeira oportunidade.
- Ele  o tipo de homem que, quando pe uma idia na cabea, no desiste facilmente. Por isso ficou milionrio. Tenho at medo de acabar entrando na igreja de brao
dado com Matilde, sem me dar conta do que estou fazendo. - Aps uma pausa, ele acrescentou: - E se eu disser que voc  minha mulher? Que acha?
Passada a surpresa, Rena respondeu:
- Considerando-se o estado em que se encontra a Granja, ele pensar que voc se casou com uma mulher muito relaxada.
- Ento, o que posso dizer?
Rena teve a impresso de que o conde lhe suplicava auxlio. Pensou um pouco e sugeriu:
- Talvez seja melhor dizer que sou uma parente sua e estou aqui para ajud-lo. Ou, se seu amigo insistir no casamento, diga-lhe que estamos noivos. E acrescente
que no pode se casar enquanto no tiver dinheiro para restaurar a casa, deixando-a digna de um homem com o ttulo que voc possui.
- Isso me parece bom, soa mesmo como verdade! Assim ser impossvel a ele forar a filha, sabendo que estou noivo de outra mulher.
- Ou ento, se preferir, fale que sou sua governanta.
- Se o homem tiver um resqucio de inteligncia, o que tem e muita, ver logo que voc  bonita demais, jovem demais, para ser uma governanta. Vai imaginar que est
aqui por outras razes.
- Muito bem, ento. - Rena j se impacientava com tanta indeciso. - Fale que estamos noivos e, como j disse, que apenas aguardamos a reforma da casa para nos casarmos.
- S posso lhe dizer que aprecio muito essas qualidades - Rena comentou. - Mas outra coisa posso lhe dizer tambm,  que no temos comida suficiente para jantar.
E, se desejar lev-los a um restaurante - o mais perto fica a trs quilmetros daqui - previno-o desde j que a comida  razovel, mas longe da qualidade esperada
por milionrios.
- No se preocupe. No tenho inteno de convid-los para jantar. Quero jantar sozinho com voc. Posso ver, pelas coisas que comprou, que nosso jantar ser excelente.
- Isso  um desafio? - Rena sorriu. - Mas suplico-lhe, no permita que suas visitas fiquem para jantar. Se pretende convid-los, ento v  mercearia a fim de comprar
mais comida.
- No pretendo insistir para que fiquem e tenho a impresso de que, quando ficar bem claro que no desejo me casar com Matilda, os dois voltaro para Londres.
- Desejo que as coisas sejam to fceis como pensa. Mas sempre ouvi dizer que milionrios ficam milionrios porque, quando pe na cabea que vo ser ricos, ningum
os segura.
- Aguarde at conhecer o sr. Wyngate - o conde disse. - Ele  exactamente o tipo de homem que voc esperaria ver num novo milionrio. A filha, como j lhe disse,
 feia e no tem nada que a favorea a no ser a conta bancria do pai.
- Agora voc est sendo maldoso - censurou-o Rena. - Mas ao mesmo tempo estou certa de que v ter dificuldade em rejeitar o que o homem lhe oferecer para reformar
a Granja, que voltaria a ser como foi h centenas de anos atrs. Papai disse que, quando chegou na aldeia como proco, a Granja tinha aspecto bem melhor do que o
actual. Sempre me surpreendi como os habitantes locais, apesar de quase no ter o que comer, a protegem contra ladres e malfeitores.
- Por que fazem isso? - indagou o conde.
- Porque consideram a Granja tambm deles, e esperam que um dia haver pessoas importantes dormindo nos sumptuosos quartos e usando as salas de recepo.
- Acho pattico eles pensarem assim. Devem ter-se desapontado ao me ver chegando aqui sem nada. Eu, por meu lado, me surpreendi ao passar de marinheiro a conde.
Sem dvida fiquei atnito por ter sido localizado por causa do meu nome. Contudo, sinto-me tal qual um usurpador. Como posso fazer com que esta casa volte a ser
o que era centenas de anos atrs?
- Para resolver esse problema, diga sim ao que for sugerido por seu amigo.
O conde deu um soco na mesa.
- Com os diabos que direi sim. Espere at v-la! No quero ser maldoso, mas Matilda jamais ter aspecto de condessa, mesmo coberta de diamantes da cabea aos ps.
- Muito bem - Rena concordou. - Deixe as coisas como esto e vamos rezar para que aquilo que a cruz nos deu at agora seja apenas uma amostra do que est ainda escondido
sob as anmonas.
- Falando no assunto, sugiro que escondamos de todos o que voc descobriu. Se souberem de alguma coisa, comearo a escavacar toda a rea  busca de ouro, destruindo
a vegetao. Mas tenho a impresso, como voc tambm deve ter, de que no haver muito mais sob a cruz.
- Entendo o que diz - concordou Rena. - Se eles comearem a escavacar e a escavacar, as rvores cairo e no restar nada dessa maravilhosa floresta.
- Concordo. Ento, o que deveremos fazer  ir l  noite, s voc e eu. Com o luar, pelo menos at o fim deste ms, no precisaremos de mais luz. esCavacaremos com
cuidado para no prejudicar a beleza natural do lugar.
- Voc est certo, absolutamente certo! - Rena exclamou. -  o que faremos. Eu no poderia aguentar ver a mata e a cruz que significou tanto para papai, destrudas,
talvez at por acidente, pelas pessoas vidas da descoberta do ouro.
- Tudo bem. Ento, quando meus amigos forem embora esta noite, e se voc no estiver muito cansada, iremos at  cruz procurar mais moedas. Assim, tomaremos cuidado
para que as vidas por dinheiro no estraguem nossa floresta.
- E eu odiarei ver destrudo aquilo de que papai tinha tanto orgulho.
- Faremos tudo sozinhos, sem contar nada a ningum - o conde declarou.
Rena foi trabalhar na cozinha, e meia hora mais tarde chamou-o.
- Seu almoo est pronto, milorde. Ficarei muito desapontada se no gostar da minha comida.
- Sente-se  mesa comigo. Poderemos conversar sobre o que faremos depois. Mas uma coisa  certa...
- O qu?
- Precisamos nos livrar das visitas assim que houver chance. Para lhe dizer a verdade, estou muito interessado no que j encontramos, e quero examinar bem as moedas
antes de irmos l  noite.
- Acho que deve fazer isso - Rena concordou.
- Voc, Rena, trouxe novo sentido  minha vida, coisa de que precisei muito desde o minuto em que cheguei aqui. Para ser franco, fiquei desanimado ao ver o estado
deplorvel da casa. Mas agora talvez tenhamos chances de torn-la habitvel e, se conseguirmos, ser graas a voc.
- No, a meu pai. Foi idia dele deixar a cruz onde foi encontrada. Talvez, anos atrs, uma famlia houvesse decidido esconder seus tesouros l.
- Mal posso acreditar que isso esteja acontecendo comigo. Parece um conto de fadas, como quando soube que eu era o nico membro sobrevivente da famlia. Achei, de
incio, que se tratava de uma brincadeira.
- Mas no foi - disse Rena. - Agora voc  um conde, e a Granja esperava por sua vinda.
- Jamais sonhei que algo assim acontecesse comigo. Depois que meus pais morreram, fiquei sozinho no mundo, pois sou filho nico. Trabalhei como marinheiro num navio,
com muitos outros homens ansiosos como eu para conhecer o mundo, especialmente porque no tinham um lar. Como eu.
- O que aconteceu com seus pais? - Rena quis saber.
- Meu pai morreu quando eu tinha apenas trs anos de idade e minha me me criou. Moramos com uma velha parenta de minha me, que detestava viver s. Por conhecer
to pouco do mundo, resolvi entrar na Marinha. Fiquei to insistente que minha me teve de ceder. Nunca esquecerei de meu entusiasmo quando o navio em que eu trabalhava
entrou no mar.
- Voc ficou plenamente feliz!
- Suponho que essa seja a palavra certa, feliz - o conde repetiu. - Recebi as coisas como vieram e me senti radiante quando conheci o oriente. Estvamos em um dos
navios de sua Majestade designado para mandar mensagens de diferentes partes do mundo. Recebi excelente educao, pois felizmente morvamos perto de uma boa escola.
E, entre uma multido de marinheiros, eu fui o escolhido para mandar  Inglaterra os relatrios sobre todos os lugares que visitvamos, e sobre a atitude dos diferentes
povos do mundo em relao  Gr-Bretanha.
- Deve ter sido emocionante - comentou Rena. - Naturalmente posso entender isso, porque voc  bem diferente da maioria dos ingleses que conhecem muito pouco do
mundo alm de seu prprio pas, e que no tm interesse nenhum por nossa histria.
- Sua opinio me envaidece, Rena. Mas, francamente, reconheo que  verdade o que acabou de dizer. A maior parte dos ingleses acha que no existe nada, a leste,
a oeste ou a norte da Inglaterra, que merea ateno.
- E voc pensa que nosso pas  importante, embora bastante pequeno? - Rena indagou.
- Sem dvida. Vou lhe dizer uma coisa, pode ter orgulho de ser inglesa e ter orgulho de nossa rainha. Em quase todos os lugares onde estive como marinheiro, me senti
importante porque era ingls. Eu e os outros companheiros ramos recebidos com entusiasmo, e todos mostravam satisfao por ns os termos visitado.
- Mas possumos inimigos tambm, no?
- Naturalmente - o conde confirmou. - Os russos sempre sentiram inveja de ns, e sempre tiveram medo de nos enfrentar numa guerra.
- bem, graas ao bom Deus por isso. Acho a guerra uma coisa horrvel e espero que no futuro tenhamos uma paz duradoura.
- Espero tambm - disse o conde.
- Garanto que voc vencer a batalha desta noite. Papai costumava dizer que a arma mais importante era acreditar no que era certo, no que era bom. E lutar por isso.
Tenho certeza de que essa ser sua arma.
O conde fitou-a atentamente, mas no respondeu.
Contudo, Rena achou que os olhos dele brilhavam.
Ps-se a pensar, ento, que talvez tivesse sido entusiasta demais, lisonjeira demais.
CAPTULO IV
Rena e o conde almoaram na sala de jantar.
- Estou lhe dando muito trabalho - ele disse. - Poderamos ter comido na cozinha. Seria bem mais fcil para voc.
- Minha me ficaria chocada se soubesse uma coisa dessas. Voc  um conde, pessoa importante, e precisa sentar-se na sala de jantar.
- Um conde sem dinheiro nenhum no bolso. - Ele riu muito. - No posso me considerar importante. Mas reconheo que sua me tinha razo.  necessrio manter-se as
aparncias, mesmo que seja com grande esforo de nossa parte.
Ele comeu o que Rena lhe preparara, e achou o almoo delicioso.
Quando ela trouxe a sobremesa, uma compota de frutas variadas com creme, mal acreditou no que tinha diante de si.
- Voc est me mimando demais - comentou. - Mas h ainda uma coisa sobre a qual desejo lhe falar antes que as visitas cheguem. Porm primeiro quero saborear cada
bocado dessa sobremesa.
- Fico muito contente por voc ter gostado da minha comida. Mame e papai sempre quiseram que eu cozinhasse bem. Quando tive idade suficiente, insistiram que eu
cuidasse da cozinha da casa e eram bastante crticos acerca do que eu fazia.
- Como resultado, pode agora encontrar trabalho como banqueira em qualquer lugar.
- Pensei nisso, naturalmente. Pensei em todas as minhas possibilidades at voc me convidar para ser sua governanta.
Assim que acabou de comer a sobremesa, o conde disse:
- O que tenho a lhe falar tem de ser antes de as visitas chegarem, como j disse.
- E o que ?
- Pensei em apresent-la como minha noiva. Mas no acho a idia boa.
- Quer isso dizer que pretende se casar com a moa rica? - ela perguntou, surpresa.
- Claro que no. Jamais faria algo to idiota, to desagradvel. O que estou pensando  que, se Wyngate pretende restaurar minha casa, deixarei que o faa. No acho
que ele dir abertamente que ir fazer isso s se eu me casar com Matilda. E no sou a tal ponto orgulhoso a ponto de no aceitar as migalhas da mesa de um milionrio.
Mesmo que ele faa pouco para a Granja, o pouco que fizer ser bom.
- E o que vai dizer sobre mim?
- Que voc est me ajudando, e que  casada com um primo meu. Eu a apresentarei como sra. Colwell e direi que me considerei muito feliz por encontr-la morando aqui
na aldeia. Esse encontro foi possvel porque sua me era muito amiga da minha me. Direi tambm que sua me casara-se com um pastor da igreja e que, por morarem
muito longe uma da outra, poucas oportunidades tiveram de conviver.
- Pensou em tudo isso? Incrvel! - ela exclamou.
- Quis explicar por que motivo voc morava aqui sem acompanhante. E, ao mesmo tempo, para tornar claro que estvamos juntos por causa da amizade existente entre
nossas famlias, e no por laos do corao.
- Voc  ridculo - Rena riu muito. - Tudo se parece com aquele tipo de novela que eu no tive permisso de ler quando jovem demais, e que achei entediante quando
fiquei mais velha.
- Bem, se tudo acontecer como pretendo, valer a pena um pequeno esforo para tornar esta casa melhor. Ficarei grato por isso. Mas no ao preo de sacrificar minha
liberdade.
Rena divertia-se com a idia dele. Porm achava pouco provvel que o homem rico, ambicioso, que estava por chegar, decidido a dar um ttulo  filha, fosse apanhado
de surpresa.
Duvidava que ele ajudasse o conde sem ter certeza de que no receberia em troca o que desejava.
Contudo, resolveu no discutir sobre o modo como o conde desejava apresent-la. Sobretudo pelo facto de ela estar desacompanhada.
Como se lesse seus pensamentos, ele disse:
- Se achar mais prudente, poder ir a sua casa  noite. Afinal, ainda no h sinal do novo proco, no momento.
-  verdade - Rena concordou. - Talvez seja melhor eu ir para casa hoje.
Mas no ntimo isso a desapontou. Ficar na Granja era algo novo, emocionante. Se fosse para casa naquela noite, perderia grande parte do prazer.
Contudo, o mais importante era ajudar o conde. E ele se pudesse obter algum dinheiro sem se comprometer, tudo bem, ela o ajudaria.
Aps Tomarem caf, Rena levou a loua para a cozinha. Lavou-a, enxugou-a e colocou-a nos armrios.
A cozinha j estava bastante limpa. Mas o que Rena realmente queria era ver o assoalho das salas brilhando.
"Vai haver bastante dinheiro na floresta", dizia a si mesma. "O conde pagar uma mulher da aldeia para limpar o assoalho e as janelas dos cmodos que estiverem sendo
usados."
Rena j conclura que as melhores salas do andar trreo eram a sala de jantar, e a sala de visitas. A primeira lhe pareceu razoavelmente acolhedora. Mas a sala de
visitas tinha aspecto triste. Se fosse arrumada, o tecido do sof e das poltronas lavado, o aspecto melhoraria.
Infelizmente nada disso poderia ser feito antes da chegada das visitas. Mas logo ela se deu conta de que, quanto pior a aparncia da casa, mais chances teria o milionrio
de tentar conseguir seu intento. E se perguntava se o conde teria foras para recusar uma fortuna em favor de sua casa, qualquer que fosse o preo a pagar.
Mas, e a liberdade?
"Naturalmente que ele quer ser livre", dizia a si mesma. - "Nenhuma jovem deseja se amarrar, a menos que esteja terrivelmente apaixonado."
Mas a tentao era grande, e ela s rezava para que o conde tivesse foras para dizer no.
To logo terminou de arrumar a cozinha, Rena foi ao jardim apanhar algumas flores para enfeitar o lugar onde iriam tomar ch com as visitas. Escolheu uma sala pequena,
mas acolhedora, com vista para o jardim.
Limpou os tapetes, tirou o p e comeou a imaginar como havia sido aquela sala no passado, com mulheres de vestidos luxuosos conversando ao som de msica suave,
executada por mestres do piano. Tinha a impresso de que ainda sentia o aroma de perfumes caros.
Depois de arrumada, cheia de flores, a sala ficou to atraente que Rena no teve dvida de que o sr. Wyngate gastaria qualquer quantia para fazer o resto da casa
to convidativo como o daquela sala, se no mais.
Ao atravessar o corredor cruzou com o conde e pediu:
- Numa coisa eu insisto: no convide, sob qualquer pretexto, seus amigos para passar a noite aqui. Os quartos esto em pssimo estado. O seu  o melhor de todos,
embora precise tambm de uma boa limpeza.
- Eu fecho os olhos quando estou me despindo, e aprecio a vista enquanto me visto - o conde respondeu.
- Muito sensato. Mas no pode pedir a seus hspedes que faam o mesmo. Se sempre viveram  sombra do luxo, no saberiam como usar esses artifcios.
Ambos riram muito e depois o conde acrescentou:
- Bem, foram eles que quiseram vir aqui. Se o que virem os chocar, o problema no  meu.
- A que horas devero chegar? - indagou Rena.
- Se vierem directamente de Londres, devem estar chegando. A menos que tenham parado no caminho para almoar. Portanto, no poderemos dar uma volta pelo jardim ou
nadar no lago, que  o que eu gostaria de fazer agora.  melhor nos prepararmos para receb-los de braos abertos.
Embora o conde estivesse ansioso pela chegada das visitas, Rena lamentava no poder percorrer a casa, os jardins e a floresta com ele, antes de anoitecer.
Havia muito ainda que Rena gostaria de lhe mostrar. Por mais negligenciada que a casa estivesse, a natureza tinha sua prpria maneira de conservar o mundo exterior
vioso e lindo, durante a primavera.
Agora, quase vero, as rvores cobertas de folhagem, as flores desabrochando no meio dos gramados, e as guas do riacho arrebentando contra a rocha, eram coisas
mais lindas do que quaisquer outras que o dinheiro pudesse comprar.
" a prpria Natureza, e quem poderia pedir mais?"
De sbito apavorou-se  ideia de que o conde pudesse desistir de tudo e partir para outros lugares da Inglaterra, esquecendo-se da casa em mau estado que lhe pertencia.
"Oh, Deus", ela orava. "No permita que isso acontea."
Meia hora mais tarde ouviu-se o som de rodas de carruagem na porta da frente.
Rena, que dava os ltimos retoques na sala, soube que as visitas haviam chegado. Ouviu em seguida vozes no hall e foi ao encontro dos recm-chegados.
Um homem baixo conversava com o conde.
Vestia-se com apuros, e via-se que suas roupas eram caras. No negava ser milionrio. No porque seu alfinete da gravata brilhasse, ou porque o anel que usava no
dedo mnimo fosse valioso, mas havia como que uma aura, ou talvez uma fora emanando dele dizendo que se tratava de um milionrio.
A filha, elegantemente vestida, estava ao lado. As prolas em volta do seu pescoo e o diamante dos brincos fizeram com que Rena visse com clareza que ela era filha
de um homem muito rico.
Ambos, pai e filha, falavam animadamente com o conde quando ela apareceu. E ambos a olharam surpreendidos.
- Quero apresent-los a uma pessoa que tem me ajudado muito, to logo cheguei aqui - disse o conde. -  a sra. Colwell, casada com meu primo, que mora no norte da
Inglaterra. Rena vai lhes contar em que estado encontrei a casa. Pior do que ela mesma esperava. - E, dirigindo-se a Rena, ele acrescentou: - Nossos hspedes fizeram
a viagem de Londres at aqui em tempo recorde. Agora precisamos lhes mostrar os horrores com que me deparei ao chegar, e deix-los ver, com os prprios olhos, o
que acontece quando uma propriedade, tal qual uma linda mulher,  negligenciada.
O conde riu, mas o visitante fitava-o atentamente, sem rir.
Virando-se para Rena o conde disse, terminando com as apresentaes:
- Esses so meus amigos, Rena, o sr. Wyngate e sua encantadora filha Matilda, que veio junto com o pai para ver as runas que nos chocaram de maneira to impressionante.
Rena apertou a mo das visitas. E s naquele instante se deu conta de que no usava aliana. Ps imediatamente a mo esquerda no bolso. Precisaria providenciar uma
aliana o mais depressa possvel.
- Espero que tenham feito boa viagem - ela disse. - Acho que a durao  de duas horas, mesmo com animais ligeiros. Mas  to agradvel visitar o campo que o esforo
vale a pena.
-  exactamente o que eu estava pensando - comentou o sr. Wyngate. - Eu queria muito ver a estranha casa que meu amigo herdou. Mas agora concluo que foi um prazer
duvidoso.
O homem observava a poeira do hall enquanto falava. Rena acompanhou-lhe o olhar e imaginou que trs empregados levariam no mnimo uma semana para limpar apenas o
hall e os corredores.
E as janelas? E as escadas? As passadeiras haviam perdido a cor e estavam rasgadas em vrios lugares.
- Agora quero que me mostrem a casa que, posso ver com um golpe de vista, precisa de muita coisa para ser habitada - o sr. Wyngate falou num tom de voz brusco.
- Acho que antes tem de descansar um pouco depois da fatigante viagem - o conde sugeriu. - Um copo de vinho o reanimar. Venha comigo at a sala, o nico lugar arrumado
at agora. Ver a casa toda mais tarde.
- Eu no diria no a um copo de vinho. E acho que Matilda aceitaria tambm um.
- Eu acho to maravilhoso estar no campo! - Matilda exclamou. - Poderei ir ao jardim?
-  claro que poder - Rena respondeu. - Terei prazer em lhe mostrar o que foi um dia um lindo jardim mas que faz hoje a alegria dos coelhos e dos passarinhos.
- Esses bichinhos devem estar muito felizes em ter um lugar s para si - Matilda disse.
- Espero que aprecie a liberdade. Quando eu era criana, teria adorado ter esse espao todo s para mim.
As duas mulheres saram, deixando os homens a ss.
- Sente-se - disse o conde. Foi em seguida providenciar o vinho.
- Assim  melhor para conversarmos.
- Estou aqui h apenas dois dias - o conde explicou. - No posso fazer milagres e, mesmo que pudesse, no tenho condies econmicas para tal.
- Sua prima arrumou esta sala com muito gosto - Wyngate comentou. - Se ela decorar o resto da casa da mesma maneira, voc acha que ficar aqui ou prefere voltar
para o mar?
- Minha vida de marinheiro est encerrada. Gostei de percorrer o mundo, coisa que no teria feito seno fosse pela Marinha. Mas agora prefiro terra firme. Mesmo
esta manso, cujo tecto poder cair em minha cabea a qualquer momento,  prefervel aos balanos das ondas do mar.
- Posso entender suas razes - observou Wyngate. - Mas esta casa  inabitvel. Como pode morar do jeito que est?
- Isso  exactamente o que minha prima no pra de dizer. Mas a resposta  simples. No tenho aonde ir.
-  sobre isso que vim lhe falar. Entendo que, sem sua prima, este lugar seria vazio e depressivo. E suponho que lhe custaria uma boa quantia em dinheiro para restaur-lo.
- Muito mais do que tenho - respondeu o conde. - Com as regras que foram estabelecidas por meus antecessores, no poderei vender a propriedade, que dever passar
aos filhos que no terei, porque tambm no possuo condies para me casar. Portanto, a casa continuar assim. Pode ruir por terra, mas como posso evitar que isso
acontea?
Houve alguns minutos de silncio antes de o sr. Wyngate responder:
- Seria tudo muito simples se voc tivesse dinheiro. Embora a quantia seja considervel para a reforma, acho que vale a pena ser gasta. A casa merece.  uma herana
importante no s para voc, mas para seus filhos, quando os tiver.
- Est sendo muito optimista. - O conde deu uma gargalhada. - Como posso constituir famlia e tornar este lugar habitvel?
- Minha filha sempre o achou muito atraente - o sr. Wyngate enfim chegou ao ponto onde queria chegar. - No posso pensar num melhor presente de casamento para vocs
dois do que pr esta casa em runas e toda sua propriedade em ordem.
- Acho que o que me sugere deve ser julgado por sua filha e por mim. Se formos nos casar, precisamos nos amar, do contrrio tudo consistir numa grande farsa. Vi
sua filha apenas uma vez. Portanto, por favor, d-nos uma chance de nos conhecermos melhor. Quem pode saber o que acontecer no futuro?
-  muito sensato, meu filho., no posso negar. Vou providenciar homens para trabalhar aqui e, quando a metade do servio estiver pronta, conversaremos sobre negcios.
Estou certo de que o resultado ser satisfatrio para ambos.
- Realmente pensa assim? - indagou o conde, atnito.
-  claro que penso - o milionrio replicou. - Eu no teria ficado rico como fiquei se no tivesse palavra, ou se decepcionasse os que me ouviam. Mandarei imediatamente
trabalhadores de Londres, e sei escolher pessoal. Quando voc vir o resultado, ficar satisfeito, e Matilda tambm.
- No sei o que dizer - contestou o conde. - Sabe tanto quanto eu, que um casamento sem amor pode ser um desastre para a mulher e para o homem. Conforme j disse,
vi sua filha somente uma vez, e o mesmo sucedeu com ela.
- Mas vocs podem se ver constantemente durante as obras, e as marteladas o acordaro bem cedo pela manh - declarou o sr. Wyngate. - Estou disposto a ficar na Inglaterra
durante algum tempo. Aluguei uma casa grande e confortvel em Park Lane. Matilda e eu viremos aqui regularmente para ver o progresso das obras, e antes do fim do
vero acho que iremos ouvir os sinos da igreja local, pela qual passamos, anunciando um casamento.
- No tenho idia do que lhe responder - disse o conde. - Afinal, o que est planeando, pode no acontecer. H sempre uma possibilidade de sua filha, que por sinal
 muito atraente, vir a conhecer um homem e a se apaixonar por ele. As mulheres gostam de escolher seus maridos, e no se casam com um homem escolhido para elas,
por outras pessoas!
- Minha filha  diferente. Faz o que eu quero. E sabe que decidirei melhor do que ela sobre o que deve fazer.
- Se quer realmente me ajudar a deixar esta casa to perfeita quanto foi um dia, posso apenas agradecer-lhe do fundo de meu corao. E esperar que no se sinta lesado
nunca, quaisquer que forem as consequncias.
- Quando voc e Matilda morarem aqui e tiverem muitos filhos, serei o homem mais feliz deste mundo. A razo pela qual me tornei um milionrio deve-se ao facto de
que acredito no que fao. At agora nunca apostei em cavalo perdedor.
- Eu gostaria muito de dizer o mesmo - declarou o conde. - Mas posso apenas dizer que lhe sou muito grato.
- Guarde suas palavras de gratido at ver o final das obras. Sei que isso acontecer muito antes do que pensa.
- Espero que sim. Afinal, voc  um exemplo vivo do que um homem pode conseguir, com sua persistncia.
- Tem razo - concordou o sr. Wyngate de maneira pomposa. - No instante em que vi voc, soube que poderamos ser amigos.
Foi com dificuldade que o conde segurou-se para no dizer que fora seu ttulo que fizera o homem pedir para ser apresentado, numa festa nos Estados Unidos.
Os americanos fizeram grande estardalhao ao saber sobre a herana que ele ignorara ser sua, durante anos.
Mesmo assim, foi s depois que voltou  Inglaterra que o conde teve certeza mesmo de que herdara o ttulo com a propriedade, incluindo a casa quase em runas.
Agora havia uma chance de que a casa voltaria a ser o que fora quando construda.
Contudo, seria prudente aceitar a oferta do milionrio?
Como se adivinhasse seu pensamento, o sr. Wyngate disse:
- Oua bem, meu filho, se voc recusar minha oferta, se arrepender pelo resto da vida. Precisa aprender, como eu aprendi, a agarrar as oportunidades quando elas
aparecem, e a nunca deixar de fazer o que puder para obter o que deseja da vida.  loucura recusar uma boa oferta que lhe fazem.
- Tem razo, naturalmente que tem razo. Mas receio lhe dizer sim, quando penso que o mais prudente seria lhe dizer que vou pensar.
- No posso acreditar que seja to tolo! - O sr. Wyngate insistia. - Arrisque, rapaz, aproveite quando a oportunidade aparece. Foi o que fiz em minha vida inteira.
No me importa lhe dizer que arrisquei inmeras vezes, mas quase sempre consegui resultados satisfatrios. Quase sempre fui vencedor. E no posso acreditar que,
no seu caso, acabarei de mos vazias.
- Se pensa assim - o conde respondeu -, s posso lhe dizer obrigado. Muito obrigado mesmo. E, quanto mais cedo se iniciar o trabalho, mais emocionado ficarei por
ter a casa habitvel para mim e para meus filhos, quando e se os tiver.
Dando pancadinhas nas costas do conde, o sr. Wyngate disse:
- Agora fala com sensatez. Como eu, sabe ver onde est um bom negcio. Mas se, como imagino, no tem um lugar confortvel para ns passarmos a noite, Matilda e eu
voltaremos para Londres. Porm, logo que os pedreiros comearem a derrubar as paredes, o que acontecer em dois ou trs dias, voltaremos para apress-los e para
ter certeza de que esto fazendo tudo exactamente como voc deseja.
Ele falava com tanta determinao, que o conde concluiu que essa fora a principal qualidade que o fizera rico.
- Agora, quero percorrer a casa toda - o sr. Wyngate disse. - Quero ver todos os cmodos para ter uma idia de quantos homens devero ser contratados para comear
com o trabalho assim que eu der ordem.
Sentindo-se como se estivesse sonhando, e que nada daquilo estivesse acontecendo, o conde levou seu hspede para conhecer a casa.
Comearam por subir ao telhado e de l apreciar a propriedade. Depois desceram, abrindo cmodo por cmodo. Finalmente chegaram ao subsolo onde ficavam a sala de
jogos, o arsenal, o jardim de inverno, e a sala de msica.
Tudo o que restava do jardim de inverno eram o piso e grande quantidade de cascos de vidro.
Foram depois ao salo de baile e a outra sala que com certeza fora no passado a galeria de arte. Mas todas as teclas tinham sido roubadas. Sobravam nas paredes apenas
as marcas dos quadros.
- Telas famosas  algo que voc no pode recuperar - comentou o sr. Wyngate. - MAs h muitas obras de pintores modernos que podero ocupar o lugar do que foi roubado.
E as prximas geraes que morarem aqui sero to orgulhosas delas como seus antepassados um dia o foram do que possuam.
- Pelo que posso deduzir, meus antepassados negligenciaram demais este lugar. Li os nomes dos autores dos quadros roubados e me deu vontade de saber por onde andavam
esses quadros.
- Esquea! Esquea! - o sr. Wyngate insistia. - Vou escolher quadros para sua galeria de arte e tambm para a sala de recepo.
- Reconheo que vai contribuir enormemente para embelezar minha casa - comentou o conde. Apenas espero que no retire tudo o que ps quando o prximo conde ocupar
este lugar.
- Isso  algo que no me preocupa, pois o prximo conde me chamar de vov.
O conde reconheceu ser essa a resposta que deveria ter esperado. No disse nada, contudo. E os dois homens foram para outra sala, to nua como as demais.
Durante todo esse tempo, Rena e Matilda passeavam pelo jardim. Chegaram at a piscina.
- Est vendo? - observou Rena. - A piscina tambm foi abandonada. Seria bom podermos nadar aqui, como se fazia cem anos atrs.
- Adoro nadar - comentou Matilda. - Nos Estados Unidos, as mulheres nadam quase tanto quanto os homens. Mas penso que o mesmo no acontece em Londres.
- Acho que temos muitas piscinas no pas. Porm, para que haja a aprovao do povo, as mulheres devem usar roupas de banho de tecido grosso, e cobrir o corpo talvez
mais do que um vestido de baile cobriria.
Matilda riu muito e declarou:
- Sei disso. Minha roupa de banho  grossa e nada confortvel. Por isso prefiro nadar nua.
- E seu pai permite? - indagou Rena, escandalizada.
- Ele no sabe - Matilda confessou. - Sempre que h uma piscina nos lugares onde nos hospedamos, espero at ele ir praticar seus desportos e depois vou nadar. Volto
ao meu quarto e me visto como uma dama de respeito.
- Voc  muito esperta - Rena riu com gosto. - Mas cuidado para ele no a apanhar um dia antes que se vista.
- Meu pai ficaria furioso se isso acontecesse. Ele insiste que me comporte como uma perfeita dama. Por isso quer que eu tenha um ttulo de nobreza.
-  o que voc deseja? - Rena estava curiosa em saber.
- O que desejo  me apaixonar por algum que tambm esteja apaixonado por mim. Assim seremos muito felizes, porque nos amamos. - Ela suspirou antes de prosseguir:
- No me importaria de no ter todo o dinheiro para viver. Ou de no ter uma casa enorme que seria fria e vazia, a menos que houvesse amor.
- Ento o que voc realmente deseja  se apaixonar por algum.  isso? - Rena sussurrou.
- Se lhe contar uma coisa, promete guardar segredo? Promete no contar nada a papai?
-  claro que prometo. Qualquer coisa que voc me contar, guardarei como segredo. No contarei a ningum.
- Muito bem ento. - Matilda respirou fundo. - Estou apaixonada. E amo esse homem como ele me ama.
Enquanto falava ela olhava para trs, com medo de que algum a pudesse escutar.
Baixando bem a voz, quase num sussurro, Rena perguntou:
- E seu pai sabe disso?
- No! Claro que no! Prometa que no vai contar nada a ele.
- Prometo! Mas espero que voc saiba que seu pai  muito ambicioso em relao ao casamento, e quer que se case com um homem de prestgio.
- Sei disso - Matilda respondeu. - Da estarmos aqui. Ele quer que eu tenha um ttulo de nobreza. De preferncia duquesa. Mas, se no for possvel, condessa.
- O homem que voc ama tem um desses ttulos?
- Claro que no!  apenas senhor, e eu serei apenas senhora.
- Seu pai ficaria muito zangado se voc dissesse que queria se casar com esse homem?
- Sem dvida. Prometa mais uma vez que no vai contar a ele o que lhe disse.
- J falei que prometo. E repito mil vezes se desejar. Tudo  to emocionante! Porm receio que seus sonhos nunca se realizem.
- Farei tudo para que se transformem em realidade. Mas temos de ter pacincia. Se eu fugir agora para me casar com o homem que amo, papai cortar minha mesada. -
Matilda baixou a voz novamente como se receasse que algum a estivesse ouvindo. - Estamos economizando dinheiro e estou tentando conseguir o mais possvel de papai
sem que ele desconfie de nada. Quando tivermos uma quantia suficiente, nos casaremos e nos esconderemos num lugar onde papai no possa nos encontrar. E l ficaremos
at que ele nos perdoe, o que sei que acontecer mais cedo ou mais tarde.
- Voc  muito valente - disse Rena. - Muitas mulheres no teriam coragem de fazer isso, tendo um pai decidido como o seu.
- Sou filha dele, e to decidida quanto ele - Matilda respondeu. - Mas voc pode entender por que papai no pode descobrir nada at que estejamos prontos para fugir.
Entende, no? - Um sorriso iluminou-lhe as faces. - Mas tenho certeza, porque nos amamos muito, de que seremos mais felizes do que qualquer outro casal do mundo.
- Tenho certeza disso - Rena observou. - Se eu puder ajud-la, talvez escondendo-a ou evitando que seu pai desconfie do que voc est fazendo, conte comigo. Pode
confiar em mim.
- Fiquei certa disso no momento em que a vi. No tive ningum com quem conversar sobre o assunto durante muito tempo. E soube, assim que entrei nessa casa, que o
conde no sentia nada por mim. Nem mesmo afecto. Mas, quando vi voc, conclu que era a mulher que ele desejaria ter como esposa.
- Como pode dizer isso? - Rena estava intrigada. - Mal nos conhecemos.
- Bem, espere e ver! - Matilda falou, com um sorriso. - Mas, por favor, tenha cuidado com o que disser a papai sobre mim. Se ele souber que estou apaixonada por
Cecil, ou que Cecil me ama, encontrar um meio de faz-lo sair do pas ou at mat-lo. - Ela deu um suspiro. - Papai est acostumado a conseguir o que deseja. E
sempre consegue, essa  a verdade.
- Voc precisa ser muito esperta, Matilda. Muito, muito esperta.
- Como filha de meu pai,  exactamente o que sou. Esperta. Muito, muito esperta.
CAPTULO V
Quando se separou de Matilda, Rena continuou pensando sobre a jovem, e imaginou se algum dia ela poderia ser feliz.
Chegara  concluso, havia muito tempo j, de que o dinheiro destrua tudo o que era lindo, agradvel e confortvel da vida. O dinheiro podia liquidar com uma pessoa
mais depressa do que qualquer outra arma. Ela pensava na situao de Matilda, que no lhe parecia muito animadora. Sabia que o pai queria um ttulo de condessa para
a filha. E sabia tambm que John - como teria de chamar o conde dali por diante, pois fingira ser sua prima - no pretendia se casar com Matilda.
Tudo se lhe apresentava terrivelmente complicado.
Achava impossvel encontrar um meio de Matilda ser feliz e de John ter suficiente dinheiro para restaurar a Granja.
"Que posso fazer? Que posso fazer?", ela se perguntava.
Tinha certeza de que o sr. Wyngate procurava um meio de forar John a se casar com sua filha. Porm Matilda s queria estar com seu Cecil.
Rena no prestara ateno a nada durante o jantar, pois seus pensamentos continuavam com Cecil e no com o que estava acontecendo.
"Que situao estranha", reflectia. "Pelos vistos, eu sou a nica pessoa no envolvida no caso."
Mas, bem no fundo de sua mente, havia a pergunta sobre o que fazer, como viver, e de quando deveria sair da Granja.
Ocupava-se agora arrumando os quartos e saletas da casa.
Num dos quartos achou que a cama estava em lugar errado. Deitada, a pessoa no podia ver o sol da manh entrando pela janela.
Em outro cmodo, uma saleta, embora achasse que nunca seria usada, achou que o aspecto era frio demais. No um lugar acolhedor onde se podia sentar em volta do fogo,
conversando ou lendo.
A biblioteca era um local onde Rena ainda no fizera uma tentativa de remodelao. Os livros pareciam jogados, como se o consulente tivesse procurado algo e depois
abandonado tudo, sem ficar satisfeito. Rena tinha certeza de que havia l livros de autores famosos, de grande valor. No mencionara o caso a John, porque ele j
tinha muito em que pensar.
De uma coisa Rena estava certa, a de evitar uma conversa com o sr. Wyngate,. Pois sabia que a nica razo de ele estar l era cuidar do casamento da filha com um
conde. Com John.
Ento, mesmo antes de o casamento se realizar, contrataria os melhores construtores do pas para pr a casa em ordem, tornando-a decente antes de ser habitada.
"Estou comeando a amar esta casa", Rena pensou, enquanto arrumava outro quarto. Escovou os tapetes, tirou o p dos mveis. "Tenho certeza de que pode se transformar
em algo precioso. Terminando o trabalho da restaurao, pessoas viro de todo o pas com o fim de visit-la. Se John cobrar a entrada, poder ganhar muito dinheiro."
O problema era o sr. Wyngate. Ele, homem esperto, manobraria a situao para que John no tivesse outra sada a no ser se casar com Matilda, uma vez terminada a
reforma.
Pai e filha passaram a noite num hotel da aldeia, modesto mas limpo, recomendado por Rena. Mas os dois foram  Granja para o caf da manh.
Inesperadamente, acabada a refeio, o sr. Wyngate manifestou desejo de ver o jardim. Assim, disse, teria uma idia da dimenso da propriedade. Como o conde no
se prontificasse a acompanh-lo, Rena ofereceu-se.
- Posso lev-lo - falou. - Havia flores lindas no passado, claro, mas acredito que um bom jardineiro por o jardim em boa forma no espao de alguns meses. O vero
na Granja  uma das paisagens mais belas do condado.
- Bem, ento venha me mostrar tudo - disse o sr. Wyngate. - Diga-me o que gostaria que fosse feito, e informarei meus homens.
Ele olhava para John enquanto falava, a fim de tornar bem claro que tinha tudo em suas mos. Bastaria uma palavra do conde, declarando que se casaria com Matilda,
e o futuro da Granja seria bem diferente do estado actual.
Como John no dissesse nada, o sr. Wyngate levantou-se e disse a Rena:
- Estou s suas ordens. Como mulher, explique-me o que deseja. John me dir mais tarde onde quer que seja construda a pista de corridas.
- Quero flores por toda a parte. Tenho vontade de chorar quando vejo a que ficou reduzido esse jardim.
- No vai precisar de chorar enquanto eu estiver a seu lado - ele disse. - Muitas mulheres choraram em meus ombros e fiz as lgrimas secarem no instante em que lhes
dei um cheque. Em alguns casos, esqueceram-se at de me agradecer.
- Talvez ento possa me ajudar a encontrar um emprego - Rena pediu. - Com sua recomendao, aposto que arranjarei trabalho numa escola, em lojas, ou em qualquer
outro lugar.
- Prometo que lhe darei referncias que faam com que todas as portas lhe sejam abertas.
-  muita amabilidade sua. Tornaremos a falar sobre o assunto quando eu estiver pronta a sair daqui. Mas uma coisa quero garantir ao senhor, ser um trabalho rduo
fazer com que este lugar fique to lindo como antes.
- Acredito - o sr. Wyngate concordou. Olhando para a filha e para John, ele acrescentou: - Vocs dois a fiquem pensando no que  melhor para a Granja. Acho que
seria interessante que fizessem uma lista dos cmodos que desejam restaurados em primeiro lugar, como o quarto, a sala de msica, o salo de baile e a galeria de
arte.
Dizendo isso ele e Rena saram. Foi evidente que agira assim de propsito, para que Matilda e John ficassem sozinhos.
Se John no propusesse casamento naquela hora, o prepotente Wyngate talvez tivesse muito a dizer quando voltasse.
Rena comeou por sugerir que os jardineiros, antes de tudo, livrassem os gramados das ervas daninhas. Em seguida chamou a ateno dele para a fonte, em terrvel
estado. J no jorrava gua havia anos.
Os dois caminharam at quase aos limites da propriedade onde se encontrava um chal, agora em runas.
- Devia ter sido um lugar apropriado para a pessoa descansar, depois de ter danado durante horas - comentou Rena.
- Voc quer com isso dizer que era este o lugar onde seu namorado a trazia para beij-la, certo de que ningum os veria?
- Infelizmente, quando esse chal estava de p, eu ainda no tinha nascido. - Rena riu muito. - Agora, no estado em que se encontra, seria impossvel ser usado.
Mas, sem dvida, quando reconstrudo juntamente com o salo, poderia ser oferecido um baile para Matilda conhecer cavalheiros charmosos vindos de Londres. Garanto
que muitos deles gostariam de beij-la aqui.
- O problema  que minha filha nunca se interessa pelos homens que escolho para ela. - Agora o sr. Wyngate falava com irritao.
- Acho difcil um pai saber escolher um homem para a filha. Naturalmente a escolha cabe a ela. E  tolice casar-se com algum, a menos que exista um grande amor.
Rena falava como se estivesse se referindo ao caso de Matilda e John. E no ficou surpreendida quando o sr. Wyngate protestou, num tom de voz cheio de revolta:
- Matilda amar e se casar com o homem que eu escolher. Que mulher  capaz de escolher o marido certo, quando o pai  um milionrio? Os homens que Matilda conhece
vo querer se casar com ela por causa de meu dinheiro. Sei o que  melhor para minha filha, sei quem a far feliz, no apenas por curto espao de tempo mas por toda
uma existncia. Por isso ela tem de aprender a me obedecer.
Aps alguns segundos, Rena encheu-se de coragem e disse:
- Acho que o senhor est se achando mais importante e mais poderoso do que realmente . O amor vem do corao, e somente Deus pode fazer uma pessoa se apaixonar.
- Fala srio? Acha mesmo que o amor  algo divino?
- Claro que . Foi cristo quem trouxe o amor ao mundo, e  esse o amor que todos procuram, desde ento. Se no for encontrado nesta vida, ser encontrado em outras
vidas que viro.
- Voc est absolutamente errada - o sr. Wyngate protestou energicamente. - O casamento foi feito para as mulheres terem filhos que carregaro consigo o nome e a
posio do pai.
- Isso  o que o senhor pensa. Eu acredito que o amor vem de Deus. Quando duas pessoas se apaixonam, acontece algo divino que no pode ser preterido pelo dinheiro,
posio, ou qualquer coisa considerada importante aos olhos do mundo. O amor vem do corao, e  obra de Deus.
- Voc est errada! Totalmente errada! Mas temos outro assunto importante a encarar no momento. Quero que me diga at onde vo as terras da Granja.
- Precisamos antes de atravessar a floresta. Quando chegarmos no alto da colina poderei lhe mostrar como  grande a propriedade do conde.
E os dois seguiram em fila indiana, pois o atalho era estreito. Quando Rena ficou de novo ao lado do sr. Wyngate, apontou para longe e disse:
- L. Acho que as terras da Granja se estendem por mais trinta quilmetros. Aquela plancie ali adiante  prpria para plantaes.
- Coisa que no existe no momento - comentou o Sr. Wyngate.
- Claro que no. Ningum quer plantar, ningum se preocupa com isso. O senhor pode ver que h uma enorme gleba de terra boa para cultivo. E seria interessante se
cuidar do caso.
- Sem dvida, mas o gasto  grande tambm. Voc acha que John ter um dia condies para isso?
- No vai ser fcil. Mas como no seu caso, outras pessoas tambm tm capacidade de vencer na vida. Quantas vezes o senhor teve de encontrar sadas para problemas
complicados, parecendo intransponveis? Quantas vezes? E conseguiu uma soluo, no foi? Outras pessoas querero seguir seu exemplo. Algum dia o senhor ser convidado
a escrever suas memrias, e contar como comeou e como venceu na vida, quando muitas vezes deve ter pensado que iria soobrar.
- Tive muita sorte, no nego. Mas ao mesmo tempo usei o crebro. E, quando queria uma coisa, convencia-me de que iria conseguir. E consegui.
- No tenho dvida de que usava o crebro, por isso ficou famoso e rico. O problema  que muita gente no faz o mesmo, e no obtm o que deseja.
- Trabalhei muito desde jovem - ele declarou. - E Sempre com sucesso porque me convencia de que teria sucesso. Houve momentos em que desanimei, mas a sorte estava
a meu lado e venci.
- Posso ver que venceu, e agora precisa ajudar outros a fazer o mesmo. h muitas pessoas que tm medo de arriscar, por isso nunca vo adiante. Mas o senhor  valente,
no tem medo de ir  luta. E venceu.
- Voc me entende, no, Rena? Da meu querer que minha filha, pois no tenho filho homem, seja to esperta quanto eu fui.
- Mas ser impossvel. O senhor  uma excepo. Chegou ao topo embora tendo de transpor obstculos. Como pode uma mulher o mesmo, quando o que deseja  sentir segurana,
ser amada, e deixar a pessoa que ela ama cuidar do trabalho? O senhor h-de querer netos que nasam do amor, porque, num lar sem amor, uma criana nunca ser feliz.
- Quero netos, se um dia os tiver, que tenham minha determinao para vencer na vida.
- Tenho certeza que tero - declarou Rena. - Mas no deve for-los a nada, no deve assust-los. A ajuda para vencer na vida tambm vem de Deus.
O sr. Wyngate fitou-a intrigado, e depois disse:
- No me admiro que pense assim,  filha de pastor. Esqueci-me desse detalhe. Os ministros da igreja sempre acham que Deus faz milagres, que Deus faz pelos homens
o que os homens deveriam ter feito por si mesmos.
- Tem razo at certo ponto. - Rena riu. - Mas parece-me que o senhor s pensa em fazer fortuna. No entanto, conheo casais extremamente felizes porque acreditam
que o amor que um sente pelo outro veio de Deus. Por mais pobres que sejam, vivem bem, porque foram abenoados pelos cus.
- No meu ponto de vista, tudo isso  tolice! Todo o mundo quer dinheiro, luta pelo dinheiro. Com dinheiro compra-se a felicidade.
- No vou discutir com o senhor, pois  um homem de sucesso. Mas o que eu gostaria de ver um dia era essa terra diante de ns produzir, como produziu no passado.
- Num passado bem passado - o sr. Wyngate riu sardonicamente. - Mas vamos adiante, mostre-me mais. E o lago?
O lago ficava a grande distncia de onde estavam. E para l foram os dois. O sr. Wyngate falava o tempo todo, observava tudo, como se calculasse o que iria gastar
na restaurao.
Da regio do lago, ele teve uma vista da torre, bem delapidada. E notou que um lado da casa parecia fora de prumo, com todas as janelas quebradas. Mas no disse
nada.
- suponho que este lago possa ser usado pelas pessoas da aldeia, dispostas a agir pelo privilgio de nadar aqui - ele enfim sugeriu.
- Se tiverem dinheiro. Os habitantes locais querem trabalhar, mas no encontram trabalho. Muitos foram empregados por um fazendeiro cujas terras ficam a dois quilmetros
de distncia. Mas continuam fazendo parte da Granja, e isso vem acontecendo durante geraes. Porm  muito triste ver o grande nmero de chals que j ruiu por
terra. Que maravilha seria alguma pessoa fazer a Granja voltar ao que era, para assumir a posio que sempre ocupou no condado e, qui, na prpria Inglaterra. -
E havia muita determinao na voz dela ao prosseguir: - Nossa aldeia foi sempre admirada e respeitada. Havia muitas referncias a ela nos livros histricos, e posso
indicar-lhe alguns, se quiser l-los.
- Tenho muito tempo para pensar, pouco tempo para ler.
Rena resolveu voltar  Granja. Os Dois atravessaram a floresta, o pomar, e entraram no jardim.
- Penso que lhe mostrei tudo - disse ela, depois de longo silncio. - Como pode concluir, h muito para se fazer aqui. Mas tenho certeza de que, uma vez feito, consistir
nu enorme avano no ponto de vista de algum que ame a evoluo histrica do pas, no desejamos que essa importante parte da histria fique perdida para sempre.
O sr. Wyngate no deu uma palavra, e Rena imaginou que ele estivesse calculando quanto custaria fazer com que a Granja voltasse ao resplendor do passado. Foi s
quando chegaram  casa que ele disse:
- Quero lhe agradecer por ter me mostrado a propriedade. Agora vou providenciar a execuo de seu desejo.
- Vou comear pondo a casa em ordem. Depois o jardim e, enfim, a rea.
- Vai mesmo comear com a Granja? - ela indagou, ainda duvidosa.
- Vou. E, assim que estiver pronta, iremos assistir ao casamento de minha filha. . Conforme voc me disse, at l o bispo j ter nomeado um pastor para tomar o
lugar de seu pai. Prometo que a cerimnia ser algo que todo o pessoal se lembrar pelo resto da vida.
Rena sentiu um frio na espinha. Pelos vistos, o senhor Wyngate continuava com a idia de fazer John se casar com sua filha. Tudo bem, se ambos assim o quisessem.
Naturalmente cabia a John aceit-la ou no como esposa. E a ela aceitar John, o que era bem pouco provvel, de acordo com a confisso que Matilda lhe fizera.
Mas, o que poderia John fazer? O que poderia ele fazer quando a casa estivesse restaurada, os campos cultivados, e os aldees, que quase morriam de fome, tivessem
trabalho e fossem prsperos como sempre quiseram ser?
Como poderia John recusar?
Ao mesmo tempo Rena pensava com horror ver duas vidas alterando seus destinos por se verem foradas a um casamento de convenincia.
Quando chegaram  casa, Wyngate foi para a saleta e Rena ao encontro de John. Ele se ocupava limpando a sala de msica. Estava coberta de p devido ao facto de todas
as janelas terem os vidros quebrados, permitindo que a poeira entrasse livremente.
O piano achava-se em estado deplorvel.
- Por que est fazendo isso? - Rena lhe perguntou.
- Porque Wyngate quer reunir o pessoal da aldeia a fim de comunicar o que pretende fazer. No h outra sala bastante grande onde caiba todo mundo. Voc sabe melhor
do que eu que existe uma na antiga escola, bastante grande, mas est em pior estado do que esta.
- Posso ajudar voc - disse Rena. - Eu no sabia que o sr. Wyngate queria conversar com os aldees. No me falou nada sobre isso.
- Acho que ele deseja mesmo reformar a Granja - comentou John.
- Sem dvida, mas quer tambm que voc se case com Matilda.
- Ele no pode me forar. Pode?
- Receio que tentar - Rena respondeu: - E, se voc recusar, ele ir embora, deixando-nos no estado em que estamos agora.
- Falei com os homens que vieram aqui hoje - disse John. - Eles consideram o trabalho quase impossvel, mas, se forem bem pagos, com certeza tentaro.
- Querem comear j?
- Muitos viro amanh. Deixarei que comecem. Afinal... esse casamento forado s ter lugar, se tiver, quando a casa for habitvel; e isso levar tempo.
Rena sentiu um peso no corao. Se o sr. Wyngate gastar uma fabulosa soma de dinheiro na casa, ser difcil a John ou a Matilda recusar satisfazer-lhe o desejo.
E logo estaro entrando na igreja de braos dados.
Mas ao mesmo tempo Rena achava que seria loucura John dizer ao milionrio, agora, que no se casaria. Tudo estaria perdido.
- Os trabalhadores vo mesmo chegar amanh? - ela indagou.
- Um exrcito de homens. E, se voc pensar que vou impedi-los de trabalhar, est enganada. Vamos ver o que podem fazer, e ser gratos pelos pequenos favores que vierem
para nosso lado.
John falava com tanta firmeza que Rena achou que seria impossvel discutir com ele. Mas imaginou de repente que, se o sr. Wyngate era esperto como parecia ser, encontraria
um meio, no ltimo momento, de obter o que desejava em troca do dinheiro que iria gastar.
"Que posso fazer para ajudar?", ela se questionava.
"Posso, isso sim, rezar para que John encontre um meio de agradecer, sem precisar se casar com Matilda, que por sua vez nunca aceitaria se casar sem amor, estando
apaixonada como estava por Cecil."
Enquanto reflectia sobre tudo isso, John voltara a se ocupar da limpeza da sala. O assoalho se encontrava to esburacado que ela achava quase impossvel colocar
cadeiras para que as pessoas da aldeia se sentassem. Mas no quis aborrecer John falando disso. E ps-se a limpar o piano, embora duvidasse que se pudesse tirar
um som daquelas cordas.
Recordou-se ento de que havia um piano na Casa Paroquial, que pertencera a seu pai.
Pensou em sugerir que se levasse o piano para a Granja, um piano que agora era seu. Se o novo proco quisesse um, que o comprasse.
De sbito, lembrou-se de que no havia ningum para preparar o ch, e foi  cozinha.
No pedira a nenhuma mulher da aldeia que a ajudasse, mas encontrou duas na cozinha.
- Ouvimos falar que a Granja iria ser restaurada, ento viemos para dar uma ajuda - uma das mulheres disse.
- Que amveis! - Rena exclamou. - A senhora sempre foi muito bondosa, sra. Percival. E sei que papai era muito grato  senhora, sra. Butler.
- Sofri muito com a morte dele - declarou a sra. Butler. - S espero que o novo proco faa alguma coisa pelas crianas. Meu marido dizia ontem mesmo que era uma
tristeza o bispo nunca ter providenciado uma escola dominical para elas. Isso sem se falar num servio religioso decente para ns, adultos.
-  verdade - Rena admitiu. - Mas ele deve estar sem auxiliares no momento, e talvez no considere nossa aldeia bastante importante como as outras.
- Bem, no concordo. Acho que somos importantes - uma das mulheres disse. - E, quando a Granja estiver restaurada, garanto que viro pessoas de toda a Inglaterra
para v-la.
- Sabem o que eu penso que seja o melhor para se fazer? - a outra mulher retrucou. -  derrubar tudo e construir uma nova casa e novos chals. Esto esperando um
exrcito de homens, no esto? Eles podem executar o trabalho.
- Isso  loucura! - Rena exclamou. - Afinal, a Granja e nossa aldeia fazem parte da histria da Inglaterra. Meu pai tinha muito orgulho de ser o pastor de uma das
aldeias mais antigas do pas.
- E uma das piores, no aspecto - uma das mulheres interferiu. - Tenho vergonha de meu chal quando minhas amigas vm me visitar. Elas olham para a Granja e perguntam,
rindo: "O que  aquilo ali? Parece uma casa assombrada."
As duas mulheres riram:
- Minhas amigas falam coisa pior - uma das mulheres comentou. - Nem posso repetir o que dizem. Mas a verdade  que ningum se preocupa connosco agora que nosso proco
morreu.
- Acho que todos vo ficar surpreendidos quando virem o que acontecer num futuro prximo. Mas, de qualquer maneira, muito obrigada pelo auxlio que me deram. Tem
sido difcil para mim limpar a casa e ao mesmo tempo cozinhar.
- Trouxemos alguma coisa para seu jantar - uma das mulheres informou. - E tambm carvo, que encontramos no ptio, para conservar o fogo aceso. Se quiser, poderemos
vir amanh de manh a fim de ajud-la a preparar o caf.
- Vocs so muito amveis. Venham mesmo, se puderem. E rezem para que nossos planos de recuperao da Granja dem certo.
- Rezaremos, e vamos esperar que pelo menos a igreja seja arrumada. O vento de ontem  noite arrancou um pedao do telhado e derrubou uma janela.
-  terrvel saber que ningum tenha vindo nos ajudar - Rena comentou. - Papai pediu ao biso que fizesse alguma coisa para a conservao da igreja, mas ele respondeu
que isso cabia ao dono da Granja fazer. E vocs devem saber muito bem que Sua Senhoria no tem dinheiro suficiente para obra to dispendiosa.
- Ns entendemos, mas o bispo deveria encontrar algum com dinheiro para executar o trabalho - uma das mulheres protestou. - Afinal, ns no podemos morrer de fome.
- Talvez tenhamos sorte e alguma pessoa aparea - explicou Rena. - Vamos rezar para que as coisas melhorem. Amanh mandarei outra carta ao bispo, e quem sabe ele
nos mande um pastor, ao menos para celebrar a cerimnia religiosa nos domingos.
- Vamos esperar que o bispo a oua. O problema  que ningum se importa que seu pai tenha morrido. Todos esperam que ns tambm desapareamos, e assim a falta de
assistncia religiosa na aldeia no pesar na conscincia de ningum.
A mulher que acabara de falar estava furiosa. Pegou a bolsa e se foi, sem esperar que Rena lhe desse alguma explicao.
A outra mulher comeava a se movimentar quando Rena lhe perguntou:
- Quanto Sua Senhoria lhes deve pela comida? Ele pagar imediatamente, se me disser quanto custou.
- Eu diria mais ou menos quinze shillings - ela disse. - Mas, se ele quiser ser generoso, poder nos dar mais sete por nosso trabalho.
- Muito bem. Vou providenciar o pagamento. E muito obrigada por terem sido to bondosas.
- Se tivermos um momento livre, voltaremos amanh - ela comunicou. -  muita coisa voc cuidar desta enorme casa sozinha. Viremos ajud-la.
"So todas to bondosas", Rena pensou. "Mas era o que eu esperava de pessoas que gostaram tanto de papai e mame. E sei que eles tambm gostaram muito de seus paroquianos.
Mas, pensando bem, como podem as coisas continuar do jeito que esto? A nica sada seria John se casar com Matilda, apesar de ser contra sua vontade. Porm ela
nunca o amaria como ama Cecil."
Rena tentou afastar da mente essas consideraes para pensar no jantar. Assim teriam o que comer. Talvez John encontrasse na adega alguma bebida a fim de tomar a
refeio mais festiva.
Pensou em seguida em sugerir, delicadamente, ao sr. Wyngate e a Matilda que jantassem no hotel, insistindo que a comida seria bem melhor que a dela. Mas talvez,
por conta prpria, eles se retirassem logo aps o ch.
Rena ps as xcaras na bandeja e deu graas ao bom Deus por ter encontrado quatro em perfeito estado. Estranhou, porque tudo o que estava intacto fora roubado, considerando-se
que s encontrara na cozinha e no resto da casa coisas quebradas, a loua desbeiada.
De qualquer maneira podia entender, pois o local estava abandonado havia anos.]
Os quadros sumiram, mas os livros permaneciam ainda l, como tambm mais mveis do que ela esperara encontrar. Alguns necessitando de conserto, mas recuperveis.
Era verdade que ela ainda no inspeccionara todos os cmodos. Espiara muitos deles da porta. Sabia que precisavam de limpeza, isso sem dvida. Os tapetes necessitavam
ser sacudidos e alguns lavados, antes de ser recolocados no lugar.
"Precisamos de um batalho de homens para arrumar tudo", ela reflectia. "No entendo como o sr. Wyngate pretenda restaurar a casa contratando apenas uma firma. Se
tivesse me perguntado, eu lhe teria dito que no mnimo dez firmas seriam necessrias, sem se contar os homens que reconstruiriam parte do prdio."
Ela deu um profundo suspiro.
Em seguida, como se algum lhe tivesse dito o que fizesse, rezou para que, por um milagre, a Granja voltasse a ser o que fora anos atrs.
A casa mais admirada, mais magnfica de toda a Inglaterra.
CAPTULO VI
Cansada, Rena subiu para se deitar.
Todos gostaram muito do jantar que ela preparara. E John encontrara bastante bebida na adega. Milagrosamente, as pessoas que haviam entrado na Granja para roubar,
no descobriram a adega. Ou talvez tivessem tido de descer ao poro, no escuro.
E, embora a comida fosse simples, o champanhe foi excelente, como tambm o vinho servido durante o jantar.
Quando Rena se dirigiu  cozinha a fim de lavar a loua, estava exausta.
O sr. Wyngate perguntara a John se ele e a filha podiam passar a noite l. Para no ser rude, John respondera que sim, embora soubesse que os quartos no estavam
em condies de receber hspedes.
No prprio quarto, Rena fechou a porta e se despiu. A porta se abriu logo depois e Matilda entrou, dizendo:
- Adivinha o que aconteceu.
- O qu?
- Cecil est aqui - Matilda sussurrou.
- Cecil? - Por segundos Rena no se lembrou de quem era Cecil. Depois, pela expresso do olhar de Matilda, concluiu que se tratava de seu amado. - Por que ele veio?
Onde est ele?
- L embaixo. Depois do jantar, sa para tomar um pouco de ar, e vi-o. Achei que Cecil no devia ter vindo, mas no deixei de ficar radiante em v-lo. Que poderemos
fazer, Rena? Onde poderemos escond-lo? Se papai o vir, e desconfiar que veio para me buscar, ficar furioso. Papai  capaz de tudo, at de brigar com Cecil e feri-lo
fisicamente.
- Tenho certeza de que seu pai no faria isso - Rena insistiu. - Mas, de qualquer maneira, ele no devia ter vindo sem prevenir.
- Cecil ouviu dizer em Londres que papai havia contratado homens para reformar a Granja. E voc sabe porqu, no, Rena? Voc sabe por qu! Ele vai me forar a casar
com John. Amo Cecil e no quero me casar com John, mas sei que papai far de tudo para conseguir o que deseja. Da ele estar tentando tornar a casa perfeita, a qualquer
custo. Mas eu no me casarei com John. Amo Cecil e ele me ama, por isso veio aqui. Quando o vi, senti que ele tentava impedir que eu fosse infeliz pelo resto da
minha vida.
Rena abraou-a e disse:
- Vamos pensar no caso com cuidado. Entendo que vocs se amam, mas sabe como seu pai ficar furioso se lhe disser que pretende se casar com Cecil em vez de John.
-  claro que eu quero me casar com Cecil. Eu o amo! Nunca serei feliz com outro homem. - Matilda estava quase em pranto.
- Seja sensata e tenha calma. A primeira coisa que teremos de fazer  encontrar um lugar para Cecil dormir. Ele no dever ficar aqui. Ser arriscado e seu pai pode
v-lo.
- Ento, aonde ter de ir? Veio de Londres com a finalidade de me levar de volta. Mas, naturalmente, no tem dinheiro para ficar num hotel e eu no tenho nada comigo
no momento. Papai far tudo o que for possvel para mand-lo embora, mesmo que seja preciso usar a fora.
Rena achou que Matilda exagerava, mas tambm sabia que o sr. Wyngate queria que a filha se casasse com um homem que tivesse um ttulo. Por essa razo queria restaurar
a Granja.
- Meu pai est mesmo mandando homens aqui para trabalhar na casa? - Matilda perguntou. - Cecil soube, pelo gerente da firma, amigo dele, que seriam enviados trinta
homens imediatamente. Talvez outros chegaro mais tarde. E Cecil soube que viro tambm alguns arquitectos com a misso de garantir a perfeio da obra.
Rena sentiu tristeza por causa de Matilda mas igualmente tambm por si prpria, pois, uma vez casado, John no precisaria mais dela na Granja. Deveria partir sozinha
pelo mundo afora,  procura de trabalho.
- Sei o que Cecil na verdade deseja - Matilda continuou. - Quer que eu fuja com ele. Mas como poderemos fugir sem dinheiro? E, alm disso, tenho certeza de que papai
me acharia em qualquer lugar, e me castigaria.
- Que ficar furioso, no h a menor dvida - concordou Rena. - Acho que seu amigo Cecil no deveria expor voc a problemas to srios.
- Para ser franca, o que eu mais desejo no momento  mesmo fugir com ele. Limparia o cho para ganhar dinheiro, se fosse necessrio, ou dormiria sob as rvores,
contanto que pudesse estar com Cecil. Ele diz que me ama e que far qualquer coisa no mundo para no me perder.
- Vamos fazer o seguinte - disse Rena. - Agora  muito tarde para falarmos sobre o assunto to desagradvel como o de voc fugir sem dinheiro, arriscando viver sem
conforto. Mas...
- Que posso fazer? - interrompeu-a Matilda.
- Eu ia dizer que poderemos conversar amanh quando estivermos menos cansadas. As coisas no parecero to assustadoras como agora.
- Como podem no parecer assustadoras? Cecil veio para me contar o que papai planeia, e quer me levar embora. Agora, o mais importante  fazermos o possvel para
que papai no saiba que ele est aqui.
-  claro que precisamos tomar alguma providncia - Rena concordou. - O melhor de tudo, por enquanto,  ele ire dormir na Casa Paroquial onde estar seguro e onde
ter certo conforto. Amanh conversaremos melhor, e talvez encontraremos uma soluo vivel.
Rena vestiu um penhoar, calou chinelos e desceu com Matilda.
- Onde est Cecil? - perguntou.
- Na sala de msica. Acho que John andou limpando a sala hoje e deixou a porta aberta. Por isso Cecil entrou em casa sem passar pela porta da frente.
- Vamos at l - disse Rena. - Mas ande na ponta dos ps para que ningum nos oua.
Rena pegou uma vela, acendeu-a, e para l se dirigiu acompanhada de Matilda Nenhuma das duas tinha idia de por onde andava o sr. Wyngate.
Receosa que ele ainda no estivesse na cama, Rena resolveu apagar a vela para no chamar a ateno. Era noite de lua cheia e a claridade seria suficiente para encontrarem
Cecil. De mos dadas, as duas mulheres foram  sala de msica. A porta estava entreaberta.
Quando entraram, viram Cecil na janela olhando o jardim. Matilda correu ao encontro dele.
- Trouxe Rena para ajudar-nos - ela sussurrou. - Rena  muito bondosa e compreensiva. Sabe como queremos estar juntos.
- Sei quem voc  - Cecil comentou. - Matilda me escreveu dizendo como havia sido boa desde o instante em que ela chegou aqui. Mas quando eu soube do nmero de empregados
contratados para vir restaurar a casa, conclu por que motivo o pai de Matilda estava to ansioso em terminar com o trabalho.
- Ele quer que eu me case com John - queixou-se Matilda. - Mas amo Cecil e ns queremos viver juntos.
- Prometo que voc no ser forada a se casar com o conde - disse ele. - Vim aqui para lev-la comigo.
- Por favor, por favor - suplicou Rena -, tenham cuidado. Sei que se amam e que querem estar juntos. Mas o pai de Matilda pretende restaurar a casa simplesmente
porque deseja que a filha se case com John e que more aqui.
- Sei disso - Cecil respondeu. - Mas ns nos amamos muito e queremos nos casar. Seremos felizes juntos.
- Sei que sero - Rena concordou. - Mas, se fugirem juntos, o sr. Wyngate pode, com apoio legal, trazer a filha de volta. E providenciar para que vocs nunca mais
se vejam.
Matilda deu um grito de horror e escondeu o rosto no ombro de Cecil. Ele abraou-a e disse:
- No se preocupe, querida. Nunca permitirei que isso acontea. Mas sua amiga est sendo bastante sensata dizendo que devemos agir com cuidado. E, naturalmente,
preciso me esconder at ver o que ir se passar.
- Fico contente em constatar que voc pensa como eu - comentou Rena. - E pode ir  Casa Paroquial que ainda me pertence por enquanto. L encontrar uma cama confortvel
onde dormir com sossego. Amanh de manh, depois de ns lhe levarmos o caf, poder sentar-se na sala e arquitectar um plano para voc e Matilda.
- Tem razo, Rena. Seu conselho  muito razovel. - E, dirigindo-se a Matilda, ele ainda acrescentou: - Agora v para a cama, e reze para que possamos ser felizes
como desejamos e para que encontremos um meio de sair dessa confuso. Ento eu serei seu e voc ser minha.
- Aqui est a chave da Casa Paroquial - disse Rena, entregando-lhe a chave. - Voc encontrar tudo de que precisa nos armrios, e velas na gaveta da mesa da cozinha.
Pegando a chave, Cecil agradeceu:
- Muito obrigado. Deus a abenoe por pensar em mim. Voc  a pessoa mais bondosa que conheci. Tenho certeza de que Matilda e eu seremos felizes, mas tenho tambm
certeza de que no ir ser fcil.
- Nada  fcil neste mundo - comentou Rena -, porm temos de achar um meio de vocs poderem viver juntos. Mas, por favor, no faa nada apressadamente at que possamos
conversar mais sobre o caso.
- Farei tudo o que voc me recomendar, Rena - prometeu Cecil. - E muito obrigado mais uma vez por ter arrumado um lugar para eu passar a noite, um travesseiro para
pousar minha cabea.
- Agora os deixo a ss a fim de que possam se despedir. - Declarou Rena, retirando-se. Olhou para trs e viu Matilda e Cecil se beijando.
Ela ia subindo para o quarto quando deparou com John. Passou-lhe pela cabea que ele poderia ir  sala de msica. Seria horrvel se encontrasse Cecil ainda por l.
- Eu no estava com sono e desci para apanhar um livro na biblioteca - ela disse.
- No devia ler a esta hora da noite - John aconselhou-a. - O sr. Wyngate j foi para a cama e eu ia dar uma ltima olhada no trabalho que fiz hoje.
- Antes que faa isso - Rena apressou-se em dizer, sabendo que, se ele fosse  sala de msica, encontraria talvez os dois namorados se beijando -, quero lhe falar
sobre uma coisa. Vamos ao salo. L estaremos mais  vontade. Como j est limpo, coloquei algumas flores nos vasos e o aspecto  acolhedor.
Chegando  sala, John acendeu vrias velas.
- Quero lhe mostrar algo - ela disse. -  um tanto assustador, mas acho que voc precisa saber.
John fitou-a, surpreso.
Quando se sentou no sof, ele sentou-se ao lado.
- Conte-me o que a preocupa - insistiu John. - Sem dvida h muita coisa que preocupa a todos ns.
- Ouvi dizer que o sr. Wyngate contratou trinta homens de Londres para vir aqui amanh, com o fim de restaurar esta casa e faz-la voltar ao que foi no passado.
- Verdade? - John parecia bastante surpreso. - Achei que ele faria isso s se eu me comprometesse a casar com a filha. Mas no tenho inteno de me casar com Matilda.
Como j lhe disse antes, e repito agora, ningum poder me forar a tal. No me casarei com Matilda! Ponto final!
-  sobre isso mesmo que desejo lhe falar - disse Rena. - Matilda tampouco quer se casar com voc, porque quer se casar com um homem que ela ama e que se chama Cecil.
- Como sabe disso? - O conde estava atnito.
- Sei porque o rapaz acabou de chegar. A idia dele  tir-la desta casa o mais depressa possvel. Apesar de estarem sem dinheiro, pretendem se casar.
- Voc est me dizendo que ela ama esse homem? - John perguntou, aps uma pausa.
- Matilde o adora, e me confessou que prefere morrer a se casar com voc.
- Que franqueza crua! - John riu muito. - Mas como tambm no tenciono me casar com ela, nada poderia ser melhor.
- Porm no se esquea de que a situao se tornar bem mais difcil se eles fugirem como Cecil deseja. Isso porque o sr. Wyngate ficar simplesmente furioso e tentar
trazer a filha de volta. Como Matilda  menor de idade, acho que legalmente poder agir assim.
- Entendo seu ponto de vista. Mas ao mesmo tempo desejo que eles sejam felizes juntos, contanto que no haja envolvimento de minha parte.
- Voc sabe muito bem, John, que o sr. Wyngate est fazendo tudo isso porque quer que a filha tenha um ttulo e more com a pompa e o luxo que s o dinheiro pode
dar.
- O que, naturalmente, no ir acontecer se ela fugir com outro homem - John terminou o pensamento de Rena.
- Claro que no. Pelo que sei, Cecil  um rapaz simples, sem ttulo algum a no ser o de senhor. Um ttulo de conde, para o sr. Wyngate,  o mesmo que atingir as
alturas.
- Boa descrio - comentou John s gargalhadas. - Atingir as alturas com meu ttulo, neste momento, no me leva a lugar nenhum.
- Mas voc precisa entender que  por causa da certeza que ele tem desse casamento com Matilda que est trazendo toda essa gente de Londres. Conforme Cecil contou,
dois arquitectos tambm viro para garantir que a Granja fique perfeita como no passado.
John deu um suspiro e replicou:
- Como eu gostaria de ver minha casa igual ao que foi no passado; mas sei que isso s seria possvel ao preo de minha liberdade e felicidade.
- E eu diria que o mesmo acontece com Matilda - interps Rena. - Ela ama muito o homem que acabou de chegar, e que eu mandei para a Casa Paroquial para passar a
noite, a fim de que ningum o visse. Porm considero errado eles fugirem amanh. Feito isso, o pessoal vindo de Londres voltar para l de mos vazias.
- Que problema difcil de se resolver! - exclamou John. - O melhor que tenho a fazer  ir conversar com esse recm-chegado para descobrir quem  ele e se tem meios
de sobrevivncia com a esposa. Porque, se o rapaz levar Matilda e no tiver dinheiro, o pai a deixar morrer de fome at que ela volte e seja forada a se casar
comigo. Sendo a moa menor de vinte e um anos, o pai ainda tem todo o poder sobre a filha.
- As coisas parecem ficar cada vez piores. - Rena deu um longo suspiro. - Sinto-me como se estivesse nadando num mar revolto sem saber como retornar  praia.
- Suas comparaes so sempre muito interessantes. - John riu. - Porm, mesmo no meio de tantas dificuldades, adoro ter voc comigo.
- E eu adoro estar aqui - respondeu Rena. - Tudo  to emocionante! Apesar de tambm muito perigoso, e precisamos ter cuidado com o que fizermos.
- O que vou fazer - declarou John -  conversar com esse homem e ver se ele tem uma soluo para o problema, afora levar Matilda daqui. Isso, ns dois sabemos, significa
deixar a Granja no exacto estado em que se encontra neste momento.
- Fico pensando que, se ele tivesse esperado um ms ou dois, teria sido bastante melhor no referente  Granja - comentou ela. - Mas tambm iria ser bem mais difcil
para voc evitar esse casamento, no estgio, adiantado da reforma.
-  verdade - John concordou. - Por sinal, o sr. Wyngate estava falando esta manh em outras melhorias que podem ser feitas depois de terminada a casa. Ele mencionou
at uma pista de corrida que, sem dvida, seria bem aceite na vizinhana.
- Naturalmente que seria. Voc j pensou, John, como as coisas ficariam bem mais fceis se voc e Matilda se casassem?
- Responderei a essa pergunta em outra ocasio. Agora sugiro que v para a cama enquanto vou ver o recm-chegado. No sei se ele quer conversar comigo a esta hora
da noite, mas...
- Nossa histria tem um novo captulo cada dia. - Rena sorriu. - Se chegarmos a um final feliz, terei certeza no apenas de que Deus no cu ouviu minhas preces como
tambm de que os anjos estavam do nosso lado.
- Esto, garanto - disse John. - Voc precisa persuadi-los a que me ajudem como a ajudam.
- Sabe que  o que desejo. A pior coisa do mundo, para qualquer pessoa,  casar com algum que no ama.
-  o que sempre pensei - concordou John. - Mas tambm temos de nos lembrar de que a necessidade atrai o demnio.
- No! No! - Rena protestou. - Deixe o demnio fora disso, no o encoraje.
- Tenho a impresso de que ele est farejando nossa porta, por mais que estejam tentando mant-lo  distncia.
- O que precisamos fazer  usar a cabea. Papai sempre falava assim quando tinha de enfrentar algum problema na aldeia. E insistia que, alm disso, se fazia necessrio
rezar muito. A ento viria a resposta a nossos problemas. Porque invariavelmente h uma resposta a qualquer problema.
- E ele sempre acertou pensando de maneira ptimista? - indagou John.
- Por mais incrvel que possa parecer, acertou. Sempre levavam a ele os maiores problemas da aldeia. E papai invariavelmente encontrava uma soluo. E no apenas
a resposta que a pessoa desejava, mas uma resposta que afastava a dificuldade para bem longe.
- Ento espero que, quando eu encontrar uma resposta a meus problemas, o recm-chegado tambm encontre uma ao dele.
- Eu rezarei para ambos, mas em especial para voc que tem sido to corajoso! Tem de vencer no fim.
John deu um profundo suspiro mas no respondeu. Foi para a porta e Rena acompanhou-o. Em seguida sussurrou:
- Vou sair pela sala de msica a fim de que ningum me veja. No tenho idia de onde o sr. Wyngate se encontra neste momento.
- Deve ter ido para a cama. Mas  melhor estarmos sempre preparados para os imprevistos que podem estar escondidos em qualquer canto da casa.
- Espero que no estejam agora - declarou John.
E ele saiu, sem fazer o menor rudo.
Rena subiu as escadas s escuras. Andava com cuidado devido ao mau estado dos degraus. O silncio na Granja era absoluto.
Ela tirou o penhoar, fechou a janela e deitou-se.
Por causa das agitaes do dia, e de seu cansao excessivo, achou que no iria dormir logo. Contudo, assim que caiu na cama, adormeceu.
No se escutava barulho algum, exceptuando-se o ocasional riflar de asas de um pssaro nas rvores.
E ela ainda dormia placidamente quando a lua desapareceu no cu e os primeiros raios do sol surgiram no nascente. Sonhava que John a beijava, e sentia o corao
palpitar de alegria e arrebatamento.
"Eu te amo! Eu te amo", ela repetia, em sonho.
E ento, quando abriu os olhos, viu que os lbios de John estavam colados aos seus. Por segundos, imaginou que ainda dormia. Mas, dormindo ou acordada, vibrava de
alegria. John estava to perto que lhe era impossvel raciocinar, podia apenas sentir a maravilha daqueles momentos.
De sbito se deu conta de que no se tratava de sonho. Tudo era real. Os lbios de John se achavam de facto colados aos seus.
- Eu te amo! Eu te amo, Rena! - ele dizia. - Enfim posso lhe fazer essa confisso. Oh, querida, diga que tambm me ama!
- Eu... amo... voc - ela balbuciou.
-  o que eu queria ouvir. Esperei muito, com receio de no haver retribuio de sua parte.
Ele beijou-a de novo. Agora apaixonadamente, quase avidamente, e Rena achava impossvel pensar em outra coisa alm do xtase daqueles beijos. Enfim disse:
- Pensei que estivesse sonhando.
- No, amor, tudo  real. Eu sou real, voc  real, e finalmente posso dizer que te amo - John repetia.
- Mas... o que aconteceu? O que voc tem a me revelar?
- Quero lhe confessar o que desejei fazer h muito tempo; foram sculos para mim. Como posso me casar com voc desde o primeiro instante em que a vi? Eu te amo,
amor, e precisava lhe dizer isso.
- Mas, o que aconteceu? - Rena perguntou mais uma vez.
- O que aconteceu? - John comeou a explicar. -  muito simples. Voc achou parte do dinheiro, e agora j tenho o suficiente para nos casarmos. No seremos ricos,
mas no morreremos de fome.
- Mas como? Por qu? O que mais encontrou?
- Aquilo que voc mesma me mostrou aos ps da cruz.
- Tinha me esquecido completamente da cruz - murmurou Rena, aturdida.
- Imaginei que tivesse se esquecido, porque nunca mais a mencionou - respondeu John com um sorriso. - Encontrei mil libras e acho que h mais. No o suficiente para
reconstruirmos a Granja, mas o bastante para ficarmos juntos. Alm disso, procurei um trabalho que nos permitir viver melhor.
- O dinheiro da cruz! - Rena exclamou. - Eu havia me esquecido disso. Tem acontecido tanta coisa nesse meio tempo!
- E voc estava certa quando me disse que talvez houvesse mais dinheiro. E, como lhe falava havia pouco, acho que deve haver ainda muito mais. Ao menos o suficiente
para nos casarmos j. Por mim, a Granja pode cair aos pedaos contanto que sobre um pedacinho para nos abrigar com relativo conforto.
- Isso  mesmo verdade? Voc encontrou mais dinheiro aos ps da cruz, junto ao espinheiro?
-  a mais pura verdade. E agora tenho o suficiente para lhe perguntar se quer me dar a honra de ser minha esposa.
- Sabe que a resposta  sim, John. Eu amei voc desde o dia em que o conheci.
- O mesmo aconteceu comigo. E cada dia eu ficava mais agoniado por no poder lhe dizer como era maravilhosa, e por no poder beij-la como posso agora.
John no esperou pela resposta. Beijou-a at que ambos se sentissem como se flutuassem. E todas as dificuldades do mundo foram esquecidas.
Enfim ele ergueu a cabea.
- No vou esperar mais - disse. - Ns casaremos assim que encontrarmos um ministro da igreja que far voc minha. E nunca a deixarei se separar de mim!
-  o que tambm desejo. Mas preciso saber como tudo isso aconteceu to inesperadamente, a ponto de eu mal poder acreditar que seja verdade.
- Mas  verdade - insistia John. - Por isso, antes de ir para a cama, tive de vir a seu quarto para dizer quanto te amo e quanto te desejo!
- Ficou fora a noite toda? Deve estar exausto!
- Estou emocionado demais, excitado demais!
- Conte-me exactamente o que houve.
John sentou-se na cama e comeou a falar.
- Fui  Casa Paroquial e encontrei Cecil quase indo para a cama. Acho que ele estava no quarto de seu pai, e parecia se sentir muito  vontade. Bem, quero dizer,
com se estivesse na prpria casa.
John fez uma pausa e Rena insistiu:
- Vamos! Quero saber exactamente como tudo se passou.
- Disse a Cecil que eu no tinha inteno de me casar com Matilda. E ele me disse que os dois se amavam havia muitos anos e que ele pretendia lev-la embora, no
se importa com a opinio do sr. Wyngate.
- E o que mais disse Cecil?
- Que um batalho de homens vinha de Londres hoje para pr a Granja em ordem o mais depressa possvel. Supliquei-lhe que no se apressasse em tomar medidas drsticas.
Expliquei-lhe que era minha vantagem ter a casa arrumada, por no ter onde morar. E falei que ele podia se casar com a mulher que amava.
John beijou Rena e deu a conversa por encerrada. Porm ela insistiu:
- Continue! Quero saber o que veio depois.
- Muito bem. Conversamos durante algum tempo ainda e Cecil concordou em no tomar providncias, pelo menos por uma semana ou duas, enquanto ele pudesse ficar na
Casa Paroquial e bem acomodado com estava.
- Continue! - Rena prosseguia insistindo.
- Sugeri que ele expusesse suas intenes ao sr. Wyngate quando algum trabalho na Granja j estivesse pronto. Foi a que Cecil tomou a palavra dizendo que, se Wyngate
tentasse impedir o casamento, eles fugiriam e se esconderiam num lugar seguro. E, enquanto Cecil descrevia seus planos, tive a impresso de ouvir a voz de seu pai
me dizendo o que eu deveria fazer. Afinal, estava no quarto dele, no estava?
- Meu pai mandou que voc voltasse ao local das moedas? Foi isso?
- Exactamente! - concordou John. - Tenho certeza de que foi seu pai que me disse que as moedas ainda existentes na cruz me forneceriam o suficiente para eu pedir
a voc que fosse minha mulher.
- Eu teria dito sim, mesmo sem as moedas.
- Acredito. Mas eu te amo muito, Rena, para permitir que sofra as agruras da pobreza. O que aconteceria se eu no tivesse dinheiro no bolso e nem um tecto sobre
nossas cabeas.
- E depois, o que mais?
- A encontrei uma p e botas de seu pai que me serviram bastante bem. Disse boa-noite a Cecil e rumei para a floresta. Felizmente, por ser noite de lua cheia, pude
ver muito bem a cruz ao lado do riacho. Encontrei o espinheiro, arranquei-o e vi logo trs moedas de ouro. esCavaquei e escavaquei. Cada vez que enterrava a p no
solo encontrava outras moedas. Quando vi que era impossvel carregar mais, trouxe o que calculei rapidamente que seria mais ou menos mil libras.
- Tanto assim? - Rena sussurrou.
- Tenho quase certeza. As moedas aumentavam de valor no decorrer dos anos.
- Foi bom ningum ter aparecido enquanto voc estava l - comentou Rena.
- Foi bom mesmo. Mas o dinheiro era seu, Rena. Rezei para ach-lo a fim de poder me casar com voc. Como poderia pedir-lhe que fosse morar comigo na Granja, nas
condies em que o local se encontrava?
- Eu ficaria feliz com voc at sem dinheiro, John. Mas acho maravilhoso pensar que poderemos morar na Granja mesmo que o sr. Wyngate no faa nada, uma vez sabendo
que a filha no vai ser condessa.
- Agora o que vou sugerir  que os homens que viro hoje faam algum trabalho. Cecil ficar quieto na Casa Paroquial at o momento em que ns dermos ao sr. Wyngate
a notcia de nossos casamentos.
- Ele ficar furioso! - Rena exclamou. - Absolutamente furioso! Se fosse possvel dar a Matilda meu ttulo de condessa, eu ficaria muito feliz sendo apenas senhora.
- Voc  to linda que merece ser condessa.
- Uma coisa me perturba, John. No acho muito justo fazer o sr. Wyngate gastar tanto dinheiro para depois descobrir que a filha nunca ter o ttulo que ele tanto
deseja.
- Matilda ser muito feliz com Cecil. Achei o rapaz extremamente simptico e honesto, e acredito que ele ama Matilda quase tanto quanto eu amo voc.
- Eu tambm tive essa impresso - Rena concordou. - Mas, como no se trata de um homem importante, o sr. Wyngate jamais o aceitar como genro.
- O que devemos fazer, embora no lhe parea justo,  esperar at que uma parte da casa seja restaurada para darmos a notcia de que haver um casamento logo, apesar
de no ser o casamento que ele espera.
Rena estava silenciosa. Pensava o tempo todo que seu pai no aprovaria aquele modo de agir. Ele acharia errado ter a Granja restaurada de um modo no muito honesto.
Mas ao mesmo tempo, pelo facto de John ter encontrado o suficiente para mant-los juntos e vivos, nada mais lhe parecia de grande importncia.
- Eu te amo! - ela murmurou, fitando-o nos olhos.
- E eu adoro voc! - John sussurrou, os lbios nos dela.
- Eu te amo de todo o meu corao! - Rena repetiu.
CAPTULO VII
Quando Rena desceu, olhou pela janela e viu carroes no ptio. Homens movimentavam-se em volta deles.
"J chegaram", pensou.
Ao entrar na cozinha, imaginou que o sr. Wyngate teria muito a conversar com a turma, portanto no se preocuparia com a filha e nem com o casamento.
Ela comeou a preparar o caf da manh. E sups logo que precisaria providenciar comida para todos, incluindo os pedreiros. Em tal caso teria necessidade de contratar
algumas mulheres da aldeia a fim de ajud-la. E aproveitaria a oportunidade para arranjar tambm pessoas que a auxiliassem na limpeza da casa.
"H ainda muito a fazer", dizia a si mesma. "Precisamos de criadagem dentro da casa tanto quanto fora."
Mas no achou que poderia dizer isso ao sr. Wyngate.
Quando ele desceu para o caf, contente pela chegada da turma de Londres, falou apenas sobre o que pretendia que se fizesse em primeiro lugar.
Nem dirigiu a palavra  filha, que entrou na sala do jantar um pouco mais tarde que os outros. Estava corada e com um aspecto to bom que Rena concluiu logo que
j havia estado na Casa Paroquial, visitando o homem que amava.
Sabendo que o sr. Wyngate ficaria furioso se viesse a saber que a filha queria se casar com um plebeu, Rena resolveu conversar acerca da Granja. Assim ele se esqueceria
de Matilda.
- Diga-me o que pretende fazer em primeiro lugar - perguntou.
E o sr. Wyngate descreveu com mincias suas idias. Rena e John reconheceram que ele agia com muito critrio e inteligncia.
Estavam ainda tomando caf quando ouviram vozes no hall.
John disse:
- Acho que so os dois arquitectos. Soube pelos homens a fora que tinham vindo juntos, mas pararam no hotel para tomar o caf da manh.
- Que pena - declarou Rena. - Poderiam ter tomado caf aqui.
- Deixe-me tornar uma coisa bem clara, Rena - informou o sr. Wyngate, - esses arquitectos comero na aldeia. No devem entrar na casa a no ser para fiscalizar as
obras e ver se os pedreiros esto fazendo o que determinei.
- Muito bom - concordou John. - H pouco, ouvi-os conversando sobre a colocao da torre num lugar que me pareceu diferente daquela que voc determinou.
- Se fizeram isso, ficarei bastante zangado! - o sr. Wyngate exclamou. - Disse uma centena de vezes que queria a torre bem no centro do telhado. Alis, um detalhe
bem importante em construo to alta e to grande como esta. Mas, como voc deve saber, John, boa parte do telhado deve ser consertada antes da tentativa de se
colocar a torre.
- Concordo com voc. Acho boa idia a sua de conservar uma torre. Assim, a Granja ser montada a grande distncia. Alm disso, a vista l de cima  magnfica. Essa
foi a inteno de quando a construram inicialmente.
- Acredito - o sr. Wyngate disse. - Torres eram muito populares numa fase da histria da Inglaterra. E lamento muito as casas no terem mais torres agora. Afinal,
devia ser interessante ao dono subir a qualquer hora para fiscalizar suas terras, a fim de ver se no foram invadidas.
O conde riu.
- Qualquer pessoa teria dificuldade de ver l de cima todas as terras que possuo. Minha propriedade  imensa.
- Voc devia ter homens guardando o local - aconselhou o sr. Wyngate. - E homens armados.
- Oh, no! - exclamou Rena, revoltada. - Com isso no concordo. Papai ficaria chocado com a idia de homens matando uns aos outros. Alguns com certeza estariam apenas
apanhando um pouco de capim nos campos para alimentar o gado, ou correndo atrs de algum cachorro fugitivo. Pior ainda seria impedir que uma criana subisse na cerca
para apanhar flores ou para ver os esquilos correndo pela floresta.
Enquanto ela fez uma pausa a fim de ganhar flego, o sr. Wyngate tomou a palavra:
- As pessoas que vivem nesta aldeia, dependentes do dono das terras, tm de aprender a se comportar e a se capacitar de que o acto de invadir propriedade alheia
deve ser punido severamente.
Horrorizada com as palavras do sr. Wyngate, Rena olhou para John como a lhe pedir socorro. Mas este limitou-se a sacudir a cabea ligeiramente, num gesto negativo,
acto esse que passou despercebido ao milionrio.
Rena achou que aquele tipo de conversa ia se tornar perigosa, por isso levou o assunto para lado mais ameno:
- Essa sua idia de conservar a torre no alto da Granja  excelente. Lembro-me de meu pai dizendo como tinham papel importante as torres, quando ele era criana.
Verdadeiros mirantes. Papai comentava que, no passado, muitos paroquianos da redondeza, e alguns de lugares mais distantes, tinham torres em suas residncias para
que no apenas pudessem ver os invasores como tambm ter certeza de que seus cavalos no haviam pulado a cerca, desaparecendo para sempre.
O sr. Wyngate riu. E disse:
- Aposto que isso seria uma tragdia naqueles dias. Mas, falando em cavalos, logo que este lugar estiver habitvel, acho que John apreciaria ganhar, como presente
de Natal ou de aniversrio, cavalos de raa que fariam a admirao de todos no condado.
- A idia  tentadora - John confessou.
O sr. Wyngate virou-se para a filha e prometeu:
- Voc, minha querida, cavalgar a mais preciosa e veloz das montarias. Causar inveja s mulheres que forem s casadas ou que pensem que os prprios cavalos sejam
os melhores do lugar.
Matilda no respondeu. Porm, com medo que ela dissesse algo desagradvel, Rena apressou-se em convidar todos a subir.
- Vamos ao telhado, vamos ver o lugar onde os arquitectos iro colocar a torre. Poderemos depois comparar a vista de agora com a vista futura, quando tivermos condies
de enxergar at o mar.
-  claro que enxergaremos - confirmou o sr. Wyngate. - A torre ser colocada no local mais alto da construo. Fico contente por voc apreciar minha idia, Rena,
Como tambm nosso anfitrio apreciar, quando tudo estiver terminado.
Rena notou que John a fitava, com o pensamento longe. Para evitar qualquer comentrio agressivo da parte dele, ela insistiu no convite.
- Se todos j acabaram de tomar caf, venha comigo ao telhado. Assim John ter chance de dizer aos arquitectos que o sr. Wyngate est pronto a dar suas ltimas ordens.
- Penso que os pedreiros j estejam l em cima trabalhando - disse John. - Naturalmente  muito importante que conheam bem o homem que os contratou e que os trouxe
at aqui.
Ele no esperou que o sr. Wyngate respondesse. Levantou-se, pronto para subir ao telhado.
- Vocs todos, se terminaram - Rena insistia -, venham comigo. Sei que se trata de uma subida difcil e bem exaustiva. Mas vai ser emocionante ver o que foi planeado.
- Ningum deu opinio, e ela prosseguiu: - Porm precisam ter cuidado onde pisam. O cho no  muito seguro. Estive l uma vez e constatei isso.  fcil enfiar o
p numa laje quebrada, o ferimento causado, dito por pessoas que o sofreram,  muito doloroso.
- Teremos cuidado - Matilde prometeu. - Naturalmente que devemos ver o que meu pai est planeando, e dar nossa opinio. Acho, francamente, que uma torre muito alta
seria horrvel.
- Concordo com voc - disse John. -  algo em que no pensei antes. Talvez possamos persuadi-lo a no deixar a torre to alta como ele deseja. Estragaria a arquitectura
da casa.
John olhava para Rena enquanto falava, e ela se viu obrigada a dar uma opinio.
- Voc tem razo - ela concordou. - Uma torre no  to importante assim numa casa linda como esta. Na verdade, poderia prejudicar a estrutura. - E depois, olhando
para Matilda, ela pediu: - Veja se voc pode conversar com seu pai a deix-la menor.
- O problema  - Matilda respondeu sorrindo - que papai sempre quer tudo mais imponente, maior do que o dos outros. Por exemplo, por eu no ser to alta quanto ele
desejaria, ficou terrivelmente desapontado.
- Que bobagem! - John exclamou, sorrindo. - Voc tem a estatura exacta para sua idade e  perfeitamente proporcional, considerando-se seu tipo fsico.
- Muito obrigada - respondeu Matilda. - Eu apenas gostaria que isso fosse verdade, ou que papai gostasse de mim como sou, em vez de me querer diferente.
Matilda olhou para trs enquanto falava, temendo que o pai ouvisse, caso ele estivesse tambm subindo as escadas.
Por saber que o madeiramento dos degraus estavam podres, Rena insistia:
- Subam mas tomem cuidado! Prestem ateno onde pisam e no se apressem. Precisam mesmo tomar cuidado. Estes degraus esto cheios de buracos, e  fcil ficar com
o p preso.
- Eu acho tudo isto muito emocionante - comentou Matilda, parecendo bastante interessada. Depois baixou a voz e acrescentou: - Como eu gostaria que Cecil pudesse
ter vindo connosco. Sei que ele iria adorar.
- Cecil vir em outra ocasio - observou Rena tambm num sussurro.
Rena notara, durante o caf, que Matilda quase no falara, com certeza pensando no homem que estava na Casa Paroquial. Ela no prestara a mnima ateno  conversa.
"Matilda precisa ter muito cuidado", reflectia Rena. "Ser um desastre o pai descobrir que Cecil se acha escondido na vizinhana, e que ela est pronta a fugir com
o namorado a qualquer momento."
Ao se levantar da mesa, depois do caf, Rena no pudera deixar de pensar no problema adicional que lhe cara nos ombros. Como se precisasse de mais um! Mas ao mesmo
tempo tinha de ser honesta consigo mesma, pois o facto de Matilda amar Cecil ajudava na soluo de seu problema. John no queria se casar com Matilda, mas tambm
no queria feri-la.
Era verdade que, se ela fugisse com John, e Matilda com Cecil, os quatro poderiam ser vtimas da vingana do sr. Wyngate. Porm, de qualquer modo, todos os quatro
teriam a conscincia tranquila. Sabiam que ningum estava magoado, o que aconteceria se John se visse forado a se casar com uma mulher que ele no amava, e que
no amava.
De qualquer maneira, Rena preocupava-se com o que viria a acontecer num futuro prximo. Pensava em como o sr. Wyngate ficaria enraivecido ao saber que a prpria
filha recusara um ttulo que ambicionara tanto para ela, s porque queria se casar com um homem que, na sua opinio, no passava de um criado. Um homem que no tinha
dinheiro e nem nada a oferecer a no ser seu corao.
Esse problema, Rena no podia deixar de pensar, era pior que qualquer outro.
Nas escadas, ela ficou um pouco atrs e John alcanou-a.
- Eu te amo - ele sussurrou.
- Eu tambm te amo - Rena respondeu. - Mas tenha cuidado. Se o sr. Wyngate descobrir alguma coisa, toda esta gente ser posta pela porta fora e nem um centmetro
da Granja ficar restaurada.
- Estou tendo cuidado - John garantiu-lhe.
Porm Rena acho que, se algum observasse o olhar dele, perceberia a expresso de amor; seria impossvel no reconhec-la.
Rena continuou a subir as escadas, notando que a passadeira precisava de reparos.
Matilda foi para perto dela e segurou-lhe a mo. Parecia estar a precisar de carinho e de fora.
Rena, naquele instante, se perguntava se estavam agindo acertadamente permitindo que o sr. Wyngate restaurasse a casa. Terminada a obra, viria inevitavelmente a
saber a verdade, que nem John e nem sua filha pretendiam fazer o que ele planeara com todos os detalhes.
"Talvez at l", reflectia Rena, "as coisas estejam melhores do que no momento. Se eu rezar, e rezar, como papai recomendava, quem sabe os cus me atendam e nada
seja to tenebroso como se apresenta agora."
Eles subiram um lance de escadas e pararam no patamar para tomar flego.
- Por que ser que o primeiro conde, o que construiu esta casa, a fez to grande e to alta? - perguntou Matilda.
- Possivelmente como seu pai - respondeu Rena -, quis que a torre dominasse a paisagem para que todos que viessem  Granja se sentissem pequenos e inferiores ante
algo to grandioso.
Matilda riu muito e disse:
- Sua explicao  lgica. Mas, para subir essas escadas todos os dias, o tal conde precisava ser muito forte. Garanto que, ao atingir idade avanada, passou a dormir
no andar trreo.
- Creio que sim. Afinal, ele era o Senhor Todo-Poderoso, e podia escolher o que bem entendesse deixando para seus subalternos o restante.
- Voc tem uma resposta a tudo, no, Rena? - E, num tom de voz bem baixo, ela acrescentou: - Ser que tem uma resposta para meu problema?
- Espero encontrar uma - respondeu Rena, tambm na surdina.
- O que esto cochichando, vocs duas? - Era John que agora estava bem perto delas. - Se estiverem falando mal de mim, as jogarei do topo do telhado. E iro mergulhar
na grama l embaixo.
- No estvamos falando mal de voc, tampouco de outras pessoas - retrucou Rena. - S porque  dono desta casa, pensa que  maravilhoso?
Rindo, ele protestou:
- Eu me sentiria de facto maravilhoso se minha casa no estivesse no estado em que est. S em subir essas escadas arrebentadas acho que vou chegar em cima sem flego.
- No comece a nos desanimar - observou Rena. - Voc j esteve l em cima, j viu tudo, agora  nossa vez. Vamos ver se  mesmo difcil subir at o topo.
- Ver que . Se quiser, posso carreg-la, Rena.
John brincava, e Rena respondeu de maneira que s ele pudesse ouvir.
- Quero, sim, mas no agora.
Os olhos de John brilharam. Ele desejou beij-la. Rena percebeu, e foi com dificuldade que virou o rosto dirigindo-se a Matilda.
- Vamos! - disse. - Temos ainda muitos degraus a galgar.
- Eu cuido de Voc - John falou, solcito, indo para bem perto de Rena. Tocou-lhe a mo, e ela sentiu um frenesi percorrer-lhe o corpo.
Ouviram-se vozes. Era o sr. Wyngate que tambm subia, acompanhado dos dois arquitectos.
- Se tivessem perguntado minha opinio - John murmurou no ouvido de Rena - eu diria que estavam comeando a restaurao da casa pelo lado errado.
- Como assim?
- Aprendi na Marinha que o casco  a parte mais importante do navio. Precisa ser forte e capaz de carregar no apenas o resto do navio como quem est dentro.
- Voc quer dizer que o sr. Wyngate deveria ter comeado pelo poro, para depois ir subindo vagarosamente at o topo?
- Foi o que quis dizer. Acho, por exemplo, que ele est errado em se preocupar tanto com a torre sem antes saber se o telhado  seguro.
- Falou isso a ele?
- Tentei, mas Wyngate nunca ouve ningum, a no ser sua prpria voz.
- Talvez por isso tenha conseguido sucesso na vida. - Rena achava que John estava sendo indelicado ao fazer essas consideraes sobre o pai de Matilda, embora ela
no estivesse ouvindo.
Mas, como se adivinhasse o teor da conversa, Matilda opinou:
- Papai sempre faz o que deseja. E, por ser muito capaz, sempre obtm sucesso em tudo o que empreende.
- Naturalmente - concordou John -, e ns o admiramos muito pelo que fez, e podemos entender o motivo de ele s vezes se ressentir por ter de esperar para conseguir
o que deseja, em vez de conseguir tudo no momento em que tencionava obter.
-  exactamente como papai se sente. E, em nove casos num total de dez, est com a razo. Portanto, no podemos culp-lo por ter tanto orgulho de si mesmo.
- No o culpo. Ao contrrio, admiro-o - replicou John. - E vamos deix-lo comear l por cima para depois ir descendo devagar at o poro.
- Se devagar, no posso garantir - declarou Matilda. - Papai quer que as coisas sejam feitas at antes de ele ordenar. Como os que trabalham com ele sabem disso,
apressam-se sempre em cumprir-lhe as ordens.
- No me surpreende o facto de ele ter obtido tanto sucesso na vida.
A essa hora j estavam quase no topo. Em mais alguns minutos no telhado.
Estava, como Rena logo notou, em pssima condio. Mas os homens j haviam comeado a trabalhar l, e ardsias tinham sido colocadas numa das extremidades do edifcio.
Mas na frente estava a torre que o sr. Wyngate teimava em desprezar. Queria uma na parte mais alta da Granja.
Os trabalhadores iniciavam a remoo da velha torre que ocupara aquele lugar havia anos. Estava em terrvel estado.
Ao lado dela via-se uma pilha de tijolos novos.
- Que confuso! - comentou John.
- Pensei que fossem construir uma nova torre - comentou Rena.
- Eu tambm pensei - observou Matilda. - Papai lhes falou mil vezes que deviam construir uma nova, muito maior que a velha. Mas me parece que esto apenas remendando
a velha, e conservando o mesmo tamanho.
- Se quer a minha opinio - disse John -, eles acharam mais fcil consertar o que j estava feito do que construir uma coisa nova.
Talvez tenham achado as pretenses do sr. Wyngate grandiosas demais, no havendo de forma alguma espao suficiente no telhado - aventou Rena.
- Eu acho que no queriam trabalhar muito - insistiu John com um sorriso.
Nesse momento o sr. Wyngate e os dois arquitectos se juntaram ao grupo.
Haviam subido as escadas logo atrs deles.
To logo pisou no telhado, o sr. Wyngate berrou:
- Diabos! No foi isso que eu ordenei! Pedi que se triplicasse o tamanho da torre, indo de um lado para outro do telhado. No lhes falei apenas uma vez, mas vinte
vezes!
- Bem, podemos comear tudo de novo - um dos arquitectos disse. - De facto, a torre que estava a no combinava com o resto da construo. Deve ter sido construda
muito tempo depois da casa.
- Tem razo - o outro arquitecto concordou. - Mas tambm acho que, se o sr. Wyngate quer uma torre maior, ser necessrio verificar antes se o telhado resiste.
- J lhes disse - o sr. Wyngate insistiu, zangado - que no quero uma pequena torre redonda, mas uma muito grande, uma que possa ser ocupada por muitas pessoas ao
mesmo tempo, sem dificuldade. O que fizeram at agora foi ridculo! Na verdade, o que fizeram pode ser jogado fora.
Enquanto falava, ele foi para o lado da torre e bateu com a bengala na parede recm-concluda.
- Cuidado, sir! - um dos arquitectos preveniu-o. - Essa parede me parece muito pouco segura.
-  claro que  insegura. A torre no devia ter continuado a, para incio de conversa. E, quanto mais depressa for removida, melhor. - O sr. Wyngate estava furioso
e bateu novamente com a bengala na velha torre.
Ouviu-se no mesmo instante um rudo seco no telhado, bem debaixo do p dele. Antes que se pudesse tomar qualquer providncia, o sr. Wyngate escorregou, deu um grito
de horror e sumiu.
Ningum falou nada, ningum respirava. Segundos mais tarde Matilda gritou:
- Papai! Papai caiu!
John foi imediatamente  porta de entrada do telhado. Ia descer para o lugar onde o sr. Wyngate devia ter cado.
Os dois arquitectos seguiram-no.
Da porta, disse a Rena:
- Ele com certeza est muito machucado.  melhor que voc e Matilda desam tambm para chamar o mdico da aldeia.
- Farei isso - Rena respondeu prontamente.
John e os dois homens desapareceram.
- Voc ouviu o que John falou - Rena disse a Matilda. - Vamos procurar o mdico. Ele mora na aldeia vizinha, mas no sei se estar em casa no momento. Precisamos
tentar encontr-lo.
- Acho que eu devia ficar com papai - Matilda sugeriu.
- Pode deixar seu pai com John e com os arquitectos. Se estiver muito machucado, eles o poro na cama. E no h nada que se possa fazer por ora alm de encontrar
o mdico.
As duas desceram o mais depressa que puderam. A passadeira rasgada e os buracos dos degraus no lhes permitiram andar mais rapidamente.
Chegaram l abaixo junto com os outros homens, todos se prontificando a procurar o mdico. Porm Rena achou melhor ela mesma fazer isso, pois conhecia a aldeia.
Contudo, precisava de conduo, pois a distncia a percorrer era mais ou menos a de um quilmetro.
Matilda quis ir junto, porm Rena sugeriu:
- Acho melhor voc ir  Casa Paroquial contar a Cecil o que se passou. Ele deve querer v-la, pois espera notcias sobre nossas actividades desta manh.
- Tudo bem - respondeu Matilda. - Mas depois quero voltar  Granja para ver meu pai.
Rena apontou a Matilda a direco da Casa Paroquial e foi  residncia de um fazendeiro conhecido seu que possua vrios cavalos.
O homem no cedeu facilmente. No queria perder tempo indo  procura do mdico. Mas Rena suplicou, dizendo que toda a aldeia estava ansiosa pela reforma da Granja.
Ele ento concordou, insistindo em ir sozinho.
- Diga ao mdico que  um caso urgente - ela pediu. - Nosso amigo caiu de grande altura.
- Fao isso por voc, Rena. No faria por qualquer pessoa num dia em que me vejo ocupado como hoje. Alm do mais, o cavalheiro estava gastando dinheiro para restaurar
a Granja, coisa que todos ns queremos muito.
- E eu ficarei muito grata por sua gentileza. Papai tambm ficaria, se estivesse entre ns. Ele sempre dizia que voc era um homem muito bom.
O fazendeiro pareceu embaraado com o elogio, mas sem dvida ficou muito contente.
Rena voltou depressa para a Granja. Tinha certeza de que o sr. Wyngate no achava falta da filha, pois devia estar desacordado, a se considerar pela gravidade da
queda.
Rena chegou  porta da casa quase sem flego. Abriu-a e, para sua grande surpresa, no havia ningum no hall.
"De certo levaram-no ao quarto em cima", pensou.
Enquanto subia as escadas viu John vindo ao seu encontro. Parou onde estava, esperando que ele se aproximasse. E disse logo:
- Mandei um amigo meu  procura do mdico. Talvez ele demore um pouco para encontr-lo. Nunca se sabe onde o mdico pode estar.
John apertou-lhe a mo.
- O que tenho a lhe contar, Rena,  muito triste. Precisa ser corajosa.
- O que houve?
- O sr. Wyngate est morto! Ao cair, bateu com a testa num lugar onde antes havia uma lareira. Quando chegamos perto, ele no respirava mais.
- Oh, John, que coisa horrvel!
- Eu sabia que voc ficaria desolada. Mas no h nada que possamos fazer, Rena, alm de esperar o mdico, mesmo sabendo que a vinda dele ser intil.
John levou Rena  sala de jantar. Em seguida foi  cozinha e disse s duas mulheres, que l haviam ido para ajudar, que preparassem um ch.
Por sorte ele encontrou um resto do vinho da noite anterior. No seria necessrio ir  adega. Encheu um copo e forou Rena a beber, o que ela fez sob protesto. Mas
tomou o ch com prazer.
- Ele est morto mesmo? - perguntou, quando as mulheres voltaram para a cozinha.
- Acho que sim. E voc ficar encarregada de contar isso a Matilda.
- O facto de o homem que Matilda ama estar a seu lado, torna as coisas bem mais fceis para ela do que se estivesse completamente s.
- Deixo isso por sua conta, Rena. Quanto a mim, enquanto o mdico no chega, providenciarei os arranjos para o sepultamento. Depois, suponho que deva mandar embora
todo o pessoal encarregado da obra.
Neste exacto momento Matilda e Cecil entravam na sala. John levantou-se.
- Rena ia agora mesmo busc-la - disse.
- Os homens l fora j nos contaram o que aconteceu - Matilda falou. - Papai est mesmo morto? Custa-me acreditar.
John tomou-a pela mo e a fez sentar-se.
- Lamento lhe dizer, minha cara, que no h nada a ser feito. Mandamos chamar o mdico, mas duvido que ele possa fazer alguma coisa.
- Nunca pensei que isso pudesse acontecer com papai - Matilda sussurrou.
- Agora, querida - disse Cecil abraando-a -, prometa que vai ser corajosa. Quero que fique na Casa Paroquial comigo enquanto espera o desenrolar dos acontecimentos.
- Quero ficar perto de papai. Acho que ele desejaria que eu fizesse isso.
- Concordo com voc, Matilda - declarou John. - E sei que ser corajosa. - Aps uma pausa, ele continuou: -Detesto ter de incomod-la neste momento com assuntos
de negcios. Mas seu pai estava pagando pelo servio desses homens. Compete a voc decidir se quer mand-los de volta a Londres ou se prefere que continuem com o
trabalho, conforme seu pai planeara.
Antes de Matilda responder, Cecil adiantou-se, dizendo:
- Preciso falar com Matilda. Querem, por favor, nos deixar a ss?
- Claro. E faremos aquilo que vocs decidirem.
John e Rena se retiraram.
- Acho que Cecil  um homem muito sensato - John comentou enquanto se dirigia com Rena para a saleta. - Matilda reagir bem ao drama, por estar com ele.
- Tudo foi to repentino, to terrivelmente inesperado! - Rena exclamou. - Ainda no posso acreditar que tenha acontecido.
- Sinto o mesmo - John concordou. - Foi uma queda horrvel. Na verdade, mataria um homem bem mais jovem. Wyngate no teria chance de sobreviver. - Ele abraou-a
e beijou-a, dizendo: - Eu te amo. E, pensando bem, nada me importa muito, contanto que voc esteja viva. Agora podemos nos casar logo que descobrirmos um pastor;
no quero esperar mais do que for absolutamente necessrio.
- Oh, John, tem certeza de que  a atitude certa a se tomar? Naturalmente que precisamos enterrar o sr. Wyngate antes.
- Sem dvida. E faremos isso. Tenho bastante dinheiro para nossa lua-de-mel, e esse ser nosso prximo passo. Quero voc s para mim. No quero pensar em nada alm
de voc, e no quero que pense em nada alm de mim.
- No desejo outra coisa, John. Estaremos sempre juntos daqui por diante, e tudo o que acontecer no futuro aguentaremos juntos. Mas o que me consola  que temos
um tecto sobre nossas cabeas.
- Graas a voc, querida, possumos dinheiro suficiente para nossa lua-de-mel. E ento lhe provarei o quanto a amo. Mesmo no tendo outra coisa alm de voc, me
considerarei o homem mais feliz do mundo.
Ele beijou-a de novo. E Rena sentiu-se carregada s nuvens. Nada importava a ela, excepto o facto de que um pertencia ao outro.
Fim
